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Pell se pronuncia no Vaticano após ser acusado de abuso sexual

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A trajetória de George Pell, padre de uma paróquia rural que chegou ao importante cargo de tesoureiro do Vaticano, foi ofuscada nos últimos anos por polêmicas do passado.

Para seus admiradores, o cardeal Pell, de 76 anos, é símbolo do tradicionalismo católico australiano. Para seus críticos, é o rosto de uma instituição que fracassou na hora de enfrentar as acusações de pedofilia.

O cardeal foi indiciado nesta quinta-feira (29) por abuso sexual, velhas acusações firmemente rejeitadas por ele e que não foram especificadas pela Polícia.

Pell garante ainda que não tinha qualquer conhecimento das práticas pedófilas generalizadas na Igreja da Austrália, dando a entender que existe um complô contra ele.

Nascido em 1941, cresceu na localidade rural de Ballarat, onde fazia teatro na escola e se destacava no futebol australiano.

Sua mãe, uma católica fervorosa, estava encantada com a opção de seu filho pela Igreja, segundo a imprensa australiana, enquanto seu pai, um anglicano, não entendia que seu filho rejeitasse um contrato de ouro com uma das equipes de futebol com mais torcedores no país.

Ele completou parte de seus estudos em Roma, antes de ser ordenado padre da diocese de Ballarat, em 1966.

- Ascensão e acusações -

Foi nomeado arcebispo de Melbourne, posteriormente de Sydney e, em 2003, foi incluído no poderoso Colégio de Cardeais. A nova posição lhe dava a possibilidade de participar da eleição do papa.

Em 2014, foi escolhido pelo papa Francisco para dar mais transparência às finanças do Vaticano, tornando-se número três da Santa Sé.

"O cardeal Pell é um dos maiores eclesiásticos que a Austrália já teve", elogiou o ex-primeiro-ministro conservador Tony Abott.

Diante de seus fiéis e da opinião pública, o cardeal Pell defende os valores tradicionais do catolicismo, com uma linha-dura em temas como eutanásia e casamento gay, além de rejeitar as críticas à política repressiva da Austrália em relação aos solicitantes de asilo.

- 'Crimes e dissimulação'

Uma investigação nacional sobre as respostas institucionais dadas aos abusos sexuais contra menores na Austrália entre 1950 e 2010 concluiu que 7% dos padres haviam sido acusados de atos de pedofilia. Essas acusações não deram lugar a qualquer inquérito, ou averiguação.

A Comissão de Investigação Real que levou essa tarefa à frente por quatro anos relatou 4.444 casos de pedofilia supostamente relacionados à Igreja australiana. Em algumas dioceses, mais de 15% dos padres eram suspeitos de abusos, acrescentou.

O cardeal Pell prestou várias vezes declaração perante essa comissão sobre o caso dos padres pedófilos da diocese de Ballarat nos anos 1970 e 1980.

O chefe das Finanças do Vaticano se desculpou em nome da Igreja, mas disse não ter lembrança de acusações de repetidos maus-tratos.

Ele afirmou não estar a par do caso dos padres nos anos 1970, embora tenha dito que foi enganado pela cúpula católica sobre o que realmente acontecia em uma época de "crimes e de dissimulação".

George Pell acabou inocentado, quando foi alvo em 2002 de antigas acusações de abuso. Nesse ano, ele era arcebispo de Sydney.

As vítimas alegam que ele teria conhecimento das agressões cometidas nas fileiras da Igreja.

"Acho que fazia bem seu trabalho", ironizou Julie Stewart, vítima de abuso sexual durante a infância, após o depoimento do cardeal Pell na Comissão de Investigação no ano passado.

"Fez seu trabalho, protegendo as vantagens da Igreja, protegendo sua reputação, mas não acho que tenha protegido as crianças", lamentou.

AFP