Um dos estadistas mais experientes do Peru, o duas vezes presidente Alan García foi encurralado pelas ramificações da rede de corrupção da empreiteira brasileira Odebrecht que derrubaram outros três ex-chefes de Estado peruanos.

García, de 69, morreu nesta quarta-feira (17), em consequência de um ferimento a bala na cabeça depois que ele tentou se matar em sua casa, pouco antes de ser detido pela polícia em um caso vinculado ao escândalo Odebrecht.

O cerco da investigação da Odebrecht começou a diminuir de forma convincente a figura de García no final do ano passado, quando ele fracassou em sua tentativa de obter asilo no Uruguai para evitar a investigação da acusação por suspeita de corrupção.

Em novembro, ele foi para a embaixada uruguaia em Lima, onde pediu asilo alegando "perseguição política". Montevidéu rejeitou o pedido e, depois de 16 dias, García teve voltar para casa.

Foi a primeira vez, em uma prolífica carreira política de quatro décadas, que o líder social-democrata peruano enfrentou problemas legais.

Nascido em Lima, em 23 de maio de 1949, era pai de seis filhos de três relacionamentos diferentes, e também tinha um neto. Até o ano passado, morou entre Lima e Madri, onde sua atual parceira vivia com seu filho mais novo.

- Profissão: sobrevivente -

Apesar da impopularidade que se seguiu ao desastre econômico de seu primeiro governo (1985-1990), ele conquistou a presidência novamente em 2006, à frente ao APRA, o partido mais antigo e sólido do Peru.

Sua reeleição poderia ser explicada por ele ter como rival no segundo turno o nacionalista militar Ollanta Humala, identificado com o então presidente venezuelano Hugo Chávez.

Garcia foi o mal menor, explicou, à época, o Prêmio Nobel peruano Mario Vargas Llosa.

Os analistas consideravam que sua ressurreição política se devia, além disso, a suas qualidades extraordinárias como candidato, o que permitia a ele neutralizar os fantasmas de seu primeiro governo e se mostrar como alguém mais tranquilo e sem as explosões impulsivas que o levaram a ser chamado "Cavalo Louco".

"Só Deus e os imbecis não mudam", declarou García para reforçar seu mea-culpa e sua metamorfose, deixando de ser um promotor da intervenção estatal na economia e abraçando o livre-mercado.

Sua primeira administração havia deixado a nação em uma profunda crise econômica e moral.

Sua política econômica foi marcada por um severo controle do câmbio, pela nacionalização do sistema bancário e por uma inflação anual de mais de 7.600% em 1990.

- Exílio e regresso -

A violência terrorista do grupo maoísta Sendero Luminoso atingiu o auge, porém, durante seu primeiro governo, que foi acusado tanto de ineficiência quanto de excessos na luta antissubversiva, incluindo a formação de esquadrões da morte.

Essas acusações, assim como as acusações de corrupção que o governo de Alberto Fujimori (1990-2000) queria lhe impingir, não deram em nada.

Perseguido após o autogolpe de Fujimori em 1992, García pediu asilo na Colômbia, e depois na França, retornando ao Peru em 2001, quando todas as acusações contra ele estavam prescritas.

Em sua segunda presidência, de 2006 a 2011, adaptou-se à atual economia neoliberal, a qual renegara em seu primeiro governo e conseguiu apagar as más lembranças que havia deixado.

A sombra da corrupção continuou a persegui-lo, porém.

Nos últimos meses, as pesquisas mostravam que Alan García era o político mais impopular do Peru, com uma rejeição de 80%.

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