Conteúdo externo

O seguinte conteúdo vem de parceiros externos. Nós não podemos garantir que esse conteúdo seja exibido sem barreiras.

Uma mulher grávida vai ao médico, em Santiago, México, no dia 13 de julho de 2015

(afp_tickers)

Mulheres que evitam a dor, médicos que ajustam seus horários e falta de fiscalização. As cesarianas aumentam de maneira desenfreada na América Latina, região onde mais se realiza esta prática em um mundo já cheio de intervenções muitas vezes desnecessárias.

A quantidade de cesáreas injustificadas estão aumentando sem nenhuma razão médica, colocando em risco desnecessário milhares de mulheres e seus bebês.

"Nós não temos nenhuma evidência para justificar esse enorme número de cesarianas", disse à AFP Bremen De Mucio, médico assessor para a América Latina em Saúde Sexual e Reprodutiva da Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com um comunicado da OMS emitido na última sexta-feira, na América Latina quase quatro em cada dez nascimentos ocorrem por cesarianas (38,9%), bem acima do recomendado há quase 40 anos pela organização: entre 10% e 15%.

Embora a região ostente o título de maior número de cesarianas, outros países como os Estados Unidos e a Espanha também produzem altas taxas de parto cirúrgico: 33% e 25%, respectivamente, segundo um relatório detalhado da OMS de 2014.

O Brasil, com 200 milhões de pessoas, tem uma média de 54% de partos feitos por cesarianas. Nos serviços privados, a cifra chega a ser maior que 80%, tornando-o o lugar do mundo onde mais se realiza o procedimento.

O contrário acontece no Haiti, onde a falta de acesso aos serviços de saúde coloca a taxa de cesarianas em 5,5%, abaixo do recomendado.

Os números crescem mesmo em países com maior predominância indígena e histórico de nascimentos naturais, como a Bolívia, onde as cesarianas aumentaram de 14,6% em 2008 para 19% em 2012, e o Peru, que saltou de 15,8% para 25%.

As altas taxas de cesarianas também foram registradas na República Dominicana (44%), na Colômbia (43%), no México (39%) e no Chile (37%).

Risco oito vezes maior

O que leva os médicos e as mulheres latino-americanas a optarem pela cirurgia com um risco oito vezes maior do que um parto normal?

As respostas são muitas, mas a principal está ligada a uma maior comodidade e ganho econômico para as equipes médicas.

"O aumento não tem nada a ver com uma necessidade médica, e sim com uma equipe médica que pensa mais em seu conforto do que no bem-estar das mulheres", afirma à AFP Ana Quirós, diretora do Centro de Informação e Consultoria de Serviços de Saúde da Nicarágua, país que tem uma das mais altas taxas de cesarianas na América Central, com 30%.

Mesmo em países onde o custo de um parto natural e de uma cesariana foram equiparados, o número de cirurgias continua a aumentar.

"Ainda quando o médico recebe por um parto normal o mesmo que recebe por uma cesariana, o tempo que o último leva o torna muito mais rentável para o profissional", explica De Mucio.

Um trabalho de parto pode durar até 24 horas. No mesmo período, o médico poderá agendar várias cesarianas, exemplifica.

Um novo papel das mulheres, mais ativas profissionalmente, com medo da dor do parto, mais estáveis e que têm adiado a maternidade, são outros fatores que influenciam este aumento.

"Eu escolhi ter meu filho por cesariana porque estava com medo do parto natural. Especialmente de sofrer durante longo tempo", disse à AFP a designer de interiores carioca Luana Martines, 26 anos, que acaba de ter o primeiro filho numa maternidade particular.

"Se uma amiga minha quisesse fazer cesariana, é claro que eu recomendaria", acrescenta.

O excesso de prevenção por parte de médicos e familiares para minimizar os riscos atenta também contra o número de partos vaginais. Em quase todo o mundo, a ginecologia é a especialidade médica mais acionada na justiça.

Além disso, "há uma cultura incompreendida de que pagando se tem mais atenção", diz à AFP Anita Roman, do Colégio de Doulas do Chile.

Partos humanizados

Várias tentativas de regular o número de cesarianas falharam na região, com o argumento de uma maior segurança para a mãe e o bebê.

"Sob o pretexto de segurança, muitos médicos dizem: 'não posso deixar que em minha maternidade as mulheres tenham partos após as duas da tarde, porque não fica mais nenhum especialista. Então, eu faço antes dessa hora para que não corram risco'", exemplifica De Mucio.

Na Europa, a taxa de cesarianas chega a 24%, graças a um maior estímulo ao parto natural.

Na maioria dos partos de baixo risco na Europa, por exemplo, o parto é quase exclusivamente feito por doulas, sem médicos.

Como solução, na América Latina pretende-se levantar uma segunda opinião médica para justificar cada uma das cesarianas e o fornecimento de mais informações às pacientes, para que elas avaliem os riscos.

A OMS, alarmada com o que chamou de uma "epidemia de cesarianas", pediu, pela primeira vez, que o recurso ao parto cirúrgico seja feito apenas quando "medicamente necessário".

AFP