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(Arquivo) O vice-presidente uruguaio Raul Sendic

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Fazendas, carros luxuosos e malas repletas de dinheiro: o uso do dinheiro público ao bel-prazer dos políticos é o reflexo de uma América Latina dominada por dirigentes corruptos e, também, cansada da desonestidade institucionalizada, embora pouca coisa se faça a respeito.

A região já passou pelo escândalo dos Panama Papers e agora assiste uma novela que parece não ter fim com a construtora Odebrecht e seu propinoduto com ramificações por vários países, do Peru e da Venezuela até Angola e Moçambique, na África.

Um dos casos mais recentes desse eterno patrimonialismo latino-americano é o do vice-presidente do Uruguai Raúl Sendic, obrigado a renunciar em 9 de setembro ao cargo por anos de malversão de milhares de dólares dos cofres públicos.

Mas em se tratando de corrupção, o Brasil é pródigo e há anos convive com a megaoperação "Lava Jato", o longo esmiuçar de um esquema de propinas envolvendo políticos de todas as tendências ideológicas.

O episódio mais recente envolve a descoberta de 51 milhões de reais dentro de caixas e malas escondidos no apartamento de um amigo do ex-ministro Geddel Vieira Lima.

O ex-presidente uruguaio José Mujica, correligionário de Sendic, tentou botar panos quentes usando justamente o exemplo brasileiro: "No Brasil, aparecem sacolas de dinheiro e lá, na Argentina, vimos freiras com os bolsos cheios de dinheiro, e nós discutindo umas ninharias".

Com certeza, na região não faltam histórias variadas sobre a sedução que o suborno fácil exerce sobre os homens públicos.

Como mencionou Mujica, em 2016 um ex-ministro argentino foi surpreendido enquanto escondia, com a ajuda de uma freira, 160 sacos contendo dólares, euros e relógios de luxo em um convento.

No México, foi um procurador-geral e ex-senador que, segundo revelou uma ONG, possuía uma Ferrari no nome de um laranja, uma estratégia muito usada para fugir do fisco.

- Corrupção no DNA -

Raúl Ferro, analista do Centro para a Abertura e Desenvolvimento da América (Cadal), com sede no Chile, é pouco otimista a respeito: "A corrupção infelizmente fez parte do DNA político na América Latina durante muito tempo".

"Mas há menos tolerância hoje. Há maior conhecimento, maior difusão dos casos de corrupção e também há um fenômeno de empoderamento da opinião pública, da sociedade civil, que facilita que se tenha uma visão muito mais crítica".

Para Adolfo Garcé, analista político da Universidade da República, em Montevidéu, "no caso uruguaio, há mais investigação do que antes, há um jornalismo mais profissional, há menos influência dos partidos políticos, e novas leis que facilitam o acesso à informação".

Os políticos latino-americanos enfrentam atualmente uma classe média mais bem educada e mais exigente em relação a seus dirigentes, as redes sociais facilitam a mobilização, e também há uma justiça mais atuante.

Para Gaspard Estrada, diretor do Opalc, o Observatório para a América Latina da Universidade Sciences Po de Paris, o exemplo perfeito é o do Brasil, onde "a justiça ocupa um lugar central no jogo político".

Um juiz de primeira instância, Sérgio Moro, se tornou um símbolo do combate à corrupção fazer com que suas investigações chegassem ao topo do poder. Em uma de suas decisões, condenou o ex-presidente Luiz Lula da Silva a quase dez anos de corrupção.

E o ex-Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot acusou o presidente Michel Temer de ser o líder de uma organização criminosa.

- Malas de dinheiro -

"Mas isso quer dizer que assim o país é menos corrupto?", questiona Estrada. "Infelizmente, acho que não".

"Por mais que se fale de renovação, de uma tomada de consciência por parte dos atores políticos, nós nos damos conta de que, mais de dez anos depois do Mensalão brasileiro, as práticas de favores e malas de dinheiro ainda continuam", explica.

Estrada também menciona a Guatemala, onde, depois de meses de manifestações contra a corrupção, em 2015, o presidente Otto Pérez renunciou e foi preso. Mas seu sucesso, Jimmy Morales, agora é acusado de financiamento ilegal de campanha.

Essa sensação de eterno recomeço "pode explicar em grande parte por que os presidentes latino-americanos têm, de maneira geral, níveis de popularidade muito pequenos", segundo o diretor do Opalc.

E daqui para frente são muitas as eleições importantes: Chile, México, Brasil e Colômbia.

"Tenho a esperança de que o que está acontecendo na América Latina possa ter um grande impacto nos próximos processos eleitorais", afirmou à AFP o peruano José Ugaz, da ONG Transparência Internacional.

Para Ugaz, dois países serão cruciais: "Se no México e no Brasil a cidadania volta mais uma vez a optar pelos corruptos e pelos partidos que o representam, a luta vai ser muito mais prolongada", conclui.

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AFP