O incêndio que arrasou parte da catedral de Notre-Dame de Paris foi apagado nesta terça-feira (16), mas ainda persistem dúvidas sobre a resistência da estrutura deste símbolo da cultura europeia e testemunha da história da França, que começa a planejar a reconstrução.

Milhões de pessoas em todo planeta acompanharam horrorizadas a evolução das chamas, que arderam intensamente durante mais de 12 horas, depois que o incêndio começou na parte superior da catedral gótica, destruindo parte da cobertura e sua emblemática torre em forma de flecha.

Na manhã desta terça-feira, o porta-voz do corpo de bombeiros de Paris, Gabriel Plus, anunciou que o incêndio está totalmente apagado.

"Todo o fogo está apagado. Entramos na fase da perícia", disse Gabriel Plus à imprensa diante da catedral.

Graças ao trabalho dos bombeiros, a estrutura do templo, que começou a ser construída no século XII, resistiu, anunciou o aliviado secretário do Interior francês, Laurent Nuñez, que afirmou que, "quinze minutos ou talvez meia hora depois", o resultado não teria sido o mesmo.

Embora ainda esteja de pé, as autoridades relataram que "vulnerabilidades" foram identificadas na estrutura do prédio, particularmente na abóbada e em uma parte do transepto norte, que forçou a evacuação de cinco edifícios adjacentes ao monumento como medida de segurança.

As autoridades privilegiam a pista de um acidente "potencialmente ligado" às obras de restauração do teto. "Nada aponta para um ato voluntário", afirmou o procurador de Paris, Rémy Heitz.

Quinze operários que estavam na catedral na segunda-feira começaram a prestar depoimento.

Ao mesmo tempo, os bombeiros prosseguem com o trabalho diante dos olhares tristes de parisienses e turistas, que se aproximaram para observar o estado da catedral, que fica no coração de Paris, às margens do rio Sena.

- Pilhas de escombros -

Plus detalhou um balanço material "dramático": "todo teto foi atingido, parte da abóbada caiu, a flecha não existe mais".

As duas torres emblemáticas permaneceram de pé, assim como a grande rosácea da fachada sul, mas uma porta parcialmente aberta permitiu observar uma pilha de escombros e algumas vigas no chão.

A prefeitura de Paris iniciou uma operação para salvar todas as obras de arte.

A coroa de espinhos e a túnica de São Luís, duas das relíquias mais importantes, estão resguardadas, segundo o monsenhor Patrick Chauvet, reitor da catedral.

- Reconstrução -

Os bombeiros entraram durante a noite "com muita coragem" nas torres para combater a tragédia por dentro e "evitar justamente que desabassem", explicou o secretário.

"O pior foi evitado", afirmou na segunda-feira o presidente Emmanuel Macron diante da catedral.

"Nós vamos reconstruir", completou, visivelmente emocionado.

Restaurar o edifício exigirá anos de obras, indicou o novo presidente da Conferência Episcopal da França, Eric de Moulins-Beaufort.

O fogo queimou a base de madeira do teto de mais de 100 metros de comprimento, conhecido como "a floresta" pelo grande número de vigas que foram utilizadas para sua instalação, assim como o pináculo (a flecha) de 93 metros de altura, um dos símbolos de Paris.

Enquanto isso, centenas de parisienses e turistas, com um ar apreensivo e um coração partido, aproximaram-se para ver com os próprios olhos o estado do monumento.

"Estou arrasada", Claire, 88 anos, disse à AFP com lágrimas nos olhos enquanto vislumbrava o que restava de sua amada catedral.

A catedral de Notre-Dame é o monumento histórico mais visitado da Europa, com entre 12 e 14 milhões de visitantes por ano.

- Chuva de doações -

A Fundação do Patrimônio, organização privada que trabalha para proteger o patrimônio francês, iniciou uma campanha de "arrecadação nacional" para a reconstrução da catedral, que pode levar anos, ou até décadas, ao custo de centenas de milhões de euros.

Menos de 24 horas após o início do incidente, cerca de 700 milhões de euros foram arrecadados em doações de grandes empresas francesas, como a L'Oréal e a Total.

O presidente, Emmanuel Macron, prometeu que o templo será "reconstruído" e que os melhores talentos do mundo serão chamados para restaurar seu brilho.

Mas a solidariedade não se limita ao território francês. O rei de Krindjabo, capital do reino de Sanwi, na Costa do Marfim, anunciou que doará dinheiro para a reconstrução do templo parisiense, onde nos anos 1700 um príncipe de seu reino foi batizado.

A cidade húngara de Szeged ofereceu 10.000 euros em agradecimento pela ajuda que recebeu de Paris após uma inundação que a devastou há mais de um século.

O papa Francisco apelou à "mobilização de todos" para reconstruir esta "joia arquitetônica".

Os especialistas, consultados pela AFP, concordam que serão necessários "pelo menos 10 a 20 anos" para recuperar a Notre-Dame.

Quanto ao custo da restauração, os números variam de acordo com as técnicas utilizadas, mas, sem dúvida, chegarão a várias centenas de milhões de euros, estimam especialistas.

- 840 anos de arte-

A Unesco, com sede em Paris, prometeu trabalhar com a França para restaurar a catedral, inscrita desde 1991 em sua lista de Patrimônio da Humanidade.

"Notre-Dame estava aqui há 840 anos. Como faremos para reconstruí-la? Os que a construíram não estão mais aqui... Conhecemos todos seus detalhes, seus segredos?", questionou a estudante Christelle, enquanto observava entristecida o monumento.

A prefeitura de Paris lançou uma operação para salvar todas as obras de arte que a catedral abrigava.

A Sagrada Coroa de Espinhos, que de acordo com a crença católica que Jesus usou pouco antes de sua crucificação, e as vestes de São Luís, podem ser salvaguardadas.

O grande órgão de Notre Dame também foi salvo das chamas, embora pudesse ter sofrido algum dano. E as pinturas da igreja serão restauradas no Museu do Louvre.

- Trégua política -

O incêndio de Notre Dame perturbou a agenda política na França. O presidente Macron suspendeu um discurso esperado no qual ele planejava anunciar um pacote de medidas para acabar com a crise dos "coletes amarelos", que eclodiu cinco meses atrás.

Em uma demonstração de solidariedade, os sinos de todas as catedrais da França soarão em uníssono na quarta-feira às 18h50 (13h50 de Brasília), na "hora em que irrompeu o incêndio em Notre Dame", anunciou a Conferência Episcopal francesa.

Notre-Dame acompanhou a história de Paris desde a Idade Média. Seus sinos anunciaram, em 24 de agosto de 1944, a libertação do jugo nazista e, no templo, aconteceram os funerais de vários chefes de Estado, como Charles de Gaulle e François Mitterrand.

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