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Presidente Donald Trump, cercado pelas senadoras Susan Collins (esq.), Lisa Murkowski e pelo senador Orrin Hatch

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O surpreendente colapso das tentativas de reforma do sistema de saúde promovidas pelo presidente Donald Trump aconteceu, em grande parte, pela resistência de duas de suas correligionárias, que aguentaram a pressão recebida de todos os lados para votarem alinhadas com o Partido Republicano.

Embora a rebelião de John McCain tenha ocupado as manchetes, os votos de duas mulheres de perfil mais baixo - Susan Collins e Lisa Murkowski - foram decisivos para impedir a revogação do chamado Obamacare.

Durante a campanha presidencial contra a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, Trump enfrentou inúmeras críticas sobre seu comportamento e seus comentários em relação às mulheres.

Depois do debate de sexta-feira sobre a reforma da saúde, os críticos voltaram a questionar as tentativas de Trump de intimidar Susan e Lisa - por terceiros, ou pelo Twitter.

Enquanto vários dos republicanos que haviam manifestado suas reservas às condições e ao projeto para revogar e substituir o Obamacare finalmente cederam às exigências de Trump, as duas se mantiveram firmes.

Na verdade, se não fosse a persistência de ambas as senadoras, o "não" de McCain no último minuto não teria impacto.

Ambas enfrentaram agressivas chamadas de atenção por parte de Trump, táticas intimidadoras de seu gabinete e até ameaças de violência do congressista republicano Blake Farenthold. O representante texano chegou a afirmar que "desafiaria algumas senadoras", se fossem homens, pois estavam bloqueando a passagem do Trumpcare.

As crescentes pressões sobre Collins e Murkowski serviram para lembrar das várias polêmicas da campanha de Donald Trump.

O agora presidente atacou uma repórter que moderou o primeiro debate entre os candidatos à Casa Branca, afirmou que Hillary Clinton era uma "facilitadora" por permitir as infidelidades do marido, Bill, usou linguagem vulgar em eventos de campanha e se gabou - em uma gravação vazada na disputa eleitoral - de assediar as mulheres.

No poder, não tem como ignorar o fato de sua iniciativa legislativa ter sido bloqueada, justamente, por suas mulheres. Entre os 52 senadores republicanos, cinco são mulheres. Collins e Murkowski foram as que se opuseram com maior consistência e constância aos planos apresentados para substituir o Obamacare.

Elas também votaram contra a indicação de Trump para o Departamento da Educação, alegando que Betsy DeVos não era qualificada para o cargo.

Quando Trump fez grosseiros comentários sobre uma apresentadora da rede MSNBC em junho, Murkowski, de 60, e Collins, de 64, criticaram o presidente publicamente.

"Já chega!", tuitou Murkowski, acompanhada por Collins, que postou um comentário nessa mesma linha.

Em relação à reforma de saúde, ambas argumentaram que vários dos planos propostos afetariam negativamente milhões de famílias americanas. Também se opuseram às primeiras propostas do Senado, alegando que teriam deixado milhões de americanos sem seguro de saúde.

- A admiração que vem da oposição -

A oposição de Susan Collins data de 2015, quando foi a única senadora republicana a votar contra uma reforma para revogar parcialmente o Obamacare.

Ela e Murkowski foram as únicas do Partido Republicano que se opuseram, esta semana, a uma moção para que o debate sobre a reforma fosse levado à plenária do Senado, o que lhes valeu um furioso tuíte de Donald Trump.

Murkowski "decepcionou de verdade os republicanos e nosso país ontem. Muito ruim", escreveu o presidente, recorrendo a seu meio de comunicação preferido.

A intimidação cresceu de maneira dramática, quando o secretário do Interior, Ryan Zinkeo, ligou para Murkowski para adverti-la de que o governo estava preparado para retirar seu apoio às perfurações de petróleo no Alasca e algumas outras prioridades. Ameaçou a senadora errada.

Lisa dirige o Comitê de Energia e Recursos Naturais do Senado e, imediatamente, adiou algumas indicações da administração Trump que estavam à espera da análise dessa mesma comissão.

Ela também não é o tipo de pessoa que foge dos desafios. Durante a campanha de reeleição em 2010, perdeu as primárias para uma candidata apoiada pelos ultraconservadores do Tea Party. Decidida, montou uma campanha para que se votasse nela escrevendo seu nome (já que não aparecia na cédula) e manteve o posto.

Com suas apaixonadas posições contra seu próprio partido, Lisa e Susan ganharam o respeito de seus colegas democratas.

"Obrigado por se manterem firmes", tuitou o senador democrata Michael Bennet.

A também senadora democrata Mazie Hirono disse à emissora CNN que havia conversado há pouco com Murkowski e ganhou um conselho contra o assédio e a perseguição: "Contra-ataque".

AFP