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As tensões da pandemia reativam protestos na América Latina

(Arquivo) Mulher participa de protesto contra o presidente argentino, Alberto Fernández afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 17. julho 2020 - 19:56
(AFP)

O longo tempo de confinamento e o pessimismo generalizado na América Latina por causa do avanço do novo coronavírus, além do fiasco econômico, têm aumentado as tensões nessa região, que em alguns casos já começam a culminar em protestos.

É um momento em que o continente se consolida como epicentro mundial da pandemia, que deixa até agora 3,6 milhões de casos e mais de 150.000 mortos sem a perspectiva próxima de que a curva de contaminação diminua. A paciência também se torna cada vez mais rara em diversos setores sociais, que em sua maioria têm obedecido às medidas propostas pelas autoridades.

Uma convite para um panelaço no Chile, na noite da última terça-feira, acabou se tornando uma série de protestos violentos.

O chamado era para que a população pressionasse em relação a uma lei que permitiria a retirada antecipada dos fundos de aposentadoria, para que as famílias pudessem enfrentar a falta de renda e a crise econômica causada pela pandemia.

"Os auxílios do [governo de Sebastián] Piñera não chegaram, eu vou sacar os 10% (da aposentadoria) e quito as mensalidades da escola das meninas", contou à AFP o engenheiro mecânico desempregado Agustín Serrano, de 41 anos.

No centro de Santiago, homens mascarados atearam fogo em ao menos 20 carros e um ônibus.

Nos arredores da cidade, apesar do toque de recolher e do envio de militares, os manifestantes ergueram barricadas e saquearam supermercados. Os protestos terminaram com 61 detidos.

A lei, que Piñera não concorda, foi aprovada no dia seguinte pelos deputados e é muito possível que receba o aval no Senado.

- Mal-estar em alta -

Na Bolívia, também na terça-feira, cerca de 4.000 pessoas desafiaram a quarentena obrigatória e marcharam por cerca de 12 km, de El Alto a La Paz.

"Estamos defendendo a estabilidade no emprego, têm acontecido muitas demissões", disse Juan Carlos Huarachi, mineirador que dirige a Central de Trabalhadores da Bolívia. Ele denuncia que o governo de Jeanine Áñez não respeita "seus próprios decretos" de estabilidade trabalhista.

Embora o protesto nos arredores do palácio do governo tenha terminado pacificamente, manifestações anteriores tiveram outro resultado.

Dias antes, os moradores de um bairro nos arredores de Cochabamba - que exigiam o fechamento de um cemitério próximo por considerá-lo como sendo fonte de infecção - foram fortemente reprimidos pelas forças de segurança, que fizeram uso até mesmo de helicópteros e aeronaves militares.

Em resposta, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) alertou o governo de Áñez "sobre suas obrigações de garantir os direitos humanos, de não criminalizar líderes e participantes dos protestos sociais".

- Liberdades individuais -

Brasil, México, Peru e Chile são os países mais castigados pela COVID-19 na região. É previsto que a pandemia faça com que mais 45 milhões de pessoas entrem na situação de pobreza na América Latina e Caribe, segundo a ONU.

Após quase cinco meses desde que o vírus surgiu na região, os governos fazem malabarismos para manter suas economias em funcionamento. Segundo estimativas da Cepal, esses países perderão mais de 2,7 milhões de empresas e ao menos 8,5 milhões de empregos.

A crescente virulência da epidemia interrompeu os planos de reabertura, como ocorreu em cidades e bairros do Chile, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, El Salvador e Brasil.

Na Argentina, onde a quarentena ocorre de forma rígida e longa - agora já tem duração de aproximadamente 120 dias -, na última semana houve protestos em várias cidades pela defesa das "liberdades individuais".

"A saúde importa, mas a economia também. Uma não fica sem a outra. O Estado não está lá para nos deixar paralisados, não é assim que ele cuida de nós", defende José Carlos Vélez, de 49 anos, que participou de um protesto no centro de Buenos Aires, junto a pessoas que agitavam bandeiras argentinas e buzinavam.

- Quarentena, sim! Quarentena, não! -

Porém, a pressão social às vezes ocorre em direções opostas.

No Brasil, por exemplo, apoiadores e opositores do governo Jair Bolsonaro fizeram protestos em Brasília para mostrar seu respectivo apoio e rejeição ao Executivo.

Bolsonaro, que está confinado em sua residência oficial desde a última semana, quando informou estar contaminado com o novo coronavírus, voltou a comentar na última quinta-feira sobre ser contra as medidas de quarentena dos estados, que afetam a economia.

Mil trabalhadores da Saúde de El Salvador também marcharam na quinta, pedindo que o Congresso endureça as medidas de quarentena como forma de conter o aumento no número de casos.

El Salvador ficou em quarentena por quase três meses, desde 21 de março. Apesar do aumento de casos, que são de cerca de 11.000, a abertura progressiva das atividades começou em 16 de junho.

No Panamá, o país mais atingido da América Central e cujos hospitais estão à beira de um colapso, os protestos da equipe de Saúde aumentaram, exigindo equipamentos de proteção, suprimentos médicos e mais funcionários para integrar a equipe.

Na quinta, grupos de médicos se posicionaram em frente ao principal centro médico público.

"A equipe está ficando doente e precisa ficar em casa", contou à AFP David Macías, médico que já teve a doença.

burs-ll/ltl/bn

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