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Foto tirada em 27 de novembro de 2016 mostra o jornalista mexicano Javier Valdez em Guadalajara

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Os mexicanos reclamavam nesta terça-feira justiça pelo assassinato do jornalista Javier Valdez, especializado em crime organizado e colaborador da AFP há mais de uma década, cuja morte provocou uma onda de indignação.

Valdez foi baleado na segunda-feira ao meio-dia em Culiacán, capital do estado de Sinaloa (noroeste), perto dos escritórios do Ríodoce, o semanário que fundou em 2003 e que se converteu em uma plataforma a partir da qual narrou os estragos da violência e do narcotráfico. Também era correspondente do jornal mexicano La Jornada.

Ao longo de sua carreira, tornou-se num dos melhores cronistas sobre o narcotráfico e o crime organizado, temas sobre os quais publicou vários livros e que lhe valeram prêmios internacionais.

O jornalista será cremado em Culiacán, sua cidade natal, nesta terça-feira às 17H00 locais (20H00 de Brasília).

Sua morte elevou a cinco os repórteres assassinados durante o ano no México, o terceiro país mais perigoso do mundo para exercer esta profissão, segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Desde 200, mais de 100 jornalistas foram assassinados no México.

"Matam sem piedade, com impunidade. Até quando?", questionou o jornal Ríodoce. "Impunidade assassina", era o título do editoral do La Jornada.

O grêmio de jornalistas organizou manifestações e lançou nas redes sociais o movimento #UnDíaSinPeriodismo (UmDiaSemJornalismo).

No Anjo da Independência, emblemático monumento da capital mexicana, foram pintadas as palavras "Estão nos matando" e denunciaram que "a situação da vulnerabilidade da imprensa é insustentável".

"Cada jornalista assassinado é uma voz que se silencia e que prejudica a todos", afirmaram.

Ao final da tarde será realizada uma homenagem a Valdez em frente à sede da Secretaria de Governança.

As redes sociais foram inundadas pelas hastags #NiUnoMás, #NosEstánMatando e #NoseMatalaVerdadMatandoPeriodistas.

Pressão

O assassinato do jornalista aumenta a pressão sobre o governo de Enrique Peña Nieto para encontrar e julgar os responsáveis pelos assassinatos de jornalistas.

O presidente assegurou na segunda que ordenou "a investigação deste crime".

O diretor para a América Latina da RSF, Emmanuel Colombié, afirmou que "esta onda de violência evidência o estado de emergência em que se encontram os jornalistas mexicanos" e reiterou que "o governo mexicano debe atuar de maneira proporcional à gravidade da situação e reforçar os mecanismos de proteção dos jornalistas".

A Anistia Internacional denunciou que "este crime, como os demais, deve ser investigado de maneira independente e imparcial e todos aqueles suspeitos devem comparecer ante a justiça". Também acusou as autoridades de serem omissas aos assassinatos.

A AFP, por meio de sua diretora de informação Michele Leridon, lamentou o assassinato de Valdez, que sempre demonstrou extrema valentia.

"Pedimos às autoridades mexicanas que esclareçam este covarde assassinato", destacou Leridon.

'É perigoso estar vivo'

Valdez, de 50 anos e pai de família, dedicou grande parte de suas quase três décadas de carreira a investigar as atividades dos cartéis, em especial o de seu estado liderado há até pouco tempo pelo sanguinário Joaquín "El Chapo" Guzman.

Sua última colaboração com a AFP foi precisamente para informar sobre a guerra interna desencadeada desde a extradição de Guzmán entre várias facções que disputam a liderança da organização.

Ao longo de sua trajetória, foi consciente do perigo que corria, mas nada o deteve.

"Em Culiacán, Sinaloa, é perigoso estar vivo e fazer jornalismo é caminhar sobre uma invisível linha marcada pelos maus que estão no narcotráfico e no governo (...). Uma pessoa deve cuidar de tudo e de todos", disse em 2011, quando recebeu o Prêmio Internacional da Liberdade de Imprensa do Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ).

Durante uma das apresentações de seu último livro, "Narcojornalismo, a imprensa em meio ao crime e à denúncia", também reconheceu que "ser jornalista é como formar parte de uma lista negra. Eles decidirão, embora você tenha blindagem e escoltas, o dia em que vão te matar".

Valdez, que também ganhou o María Moors Cabot da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia (EUA), não havia dado sinais de estar ameaçado, como confirmou o procurador de Sinaloa.

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