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Só em 2017 foram cometidos cinco homicídios de jornalistas: Cecilio Pineda, Ricardo Monlui, Miroslava Breach, Maximino Rodríguez e Javier Valdez

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Obter informação oficial sobre as investigações de assassinatos de jornalistas parece uma missão impossível no México, onde as autoridades usam a indiferença e artimanhas jurídicas para evadir repórteres que tentam documentar dezenas de homicídios, ainda impunes, cometidos contra seus colegas.

O México é um dos países mais perigosos do mundo para exercer o jornalismo, com mais de cem jornalistas assassinados desde o ano 2000.

Só em 2017 foram cometidos cinco homicídios de jornalistas: Cecilio Pineda, Ricardo Monlui, Miroslava Breach, Maximino Rodríguez e Javier Valdez.

Mais de 90% destes crimes não foram resolvidos pelas autoridades e inclusive estas mesmas autoridades - federais, estaduais e municipais - são apontadas por cometer 60% das agressões (ameaça, sequestro, espancamentos) contra jornalistas, segundo organizações de defesa da liberdade de expressão.

Comprovar o eventual envolvimento de autoridades nos assassinatos é ainda mais complicado porque os jornalistas - mortos - não podem mais contar quem os atacou, explicou à AFP Balbina Flores, representante no México da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF).

O México vive sob o jugo dos cartéis do narcotráfico e de bandos do crime organizado, que em muitas ocasiões operam com a conivência de autoridades corruptas.

"A linha é muito tênue" entre criminosos e autoridades corruptas. "Sabemos que estes conluios acontecem", assegura a ativista.

Antes de morrer, Pineda e Rodríguez trabalhavam juntos em matérias policiais. Breach cobria o conflito armado entre dois líderes dos pistoleiros e Valdez documentava a guerra interna entre várias facções do poderoso cartel de Sinaloa.

Para Leopoldo Maldonado, oficial do programa de proteção e defesa do Artigo 19, "a impunidade gerou um aliciente extremamente perverso para que os assassinatos ou desaparecimentos (de jornalistas) continuem ocorrendo".

Artimanhas das autoridades

Depois de cinco jornalistas assassinados em 2017, a impunidade continua sendo a constante, pois nenhum destes crimes foram resolvidos.

E ao tentar investigar os expedientes, a AFP encontrou enormes dificuldades para ter acesso à informação oficial.

A procuradoria especial para a atenção de delitos contra a liberdade de expressão, subordinada à procuradoria-geral, não teve disponibilidade para dar cifras ou entrevista, enquanto a maioria das procuradorias dos estados onde foram cometidos os assassinatos recusaram-se a revelar seus avanços.

As instâncias locais "sempre argumentam que não podem revelar informação das investigações" em curso, mas o que ocorre em geral é que "não fizeram grande coisa", coincide Flores.

O promotor especial de crimes contra a liberdade de expressão, Ricardo Sánchez, negou-se nesta quarta-feira a dar detalhes sobre a investigação do caso Valdez, argumentando sua "responsabilidade em guardar sigilo".

"Há evidências, há pistas", limitou-se a dizer à Rádio Fórmula.

Além disso, as autoridades não dão prioridade à profissão de jornalista como motivação do crime e costumam assumir que se trata de um assalto, crime passional ou, inclusive, que os jornalistas estão envolvidos com os criminosos.

"Sem investigar, se atrevem a fazer este tipo de afirmações públicas de uma forma totalmente irresponsável", lamenta Flores.

No caso de Valdez, as autoridades aludiram a princípio a um roubo de carro.

Ainda mais grave, em vários casos de anos anteriores, as autoridades detiveram "assassinos confessos", mas demonstrou-se que estas confissões "foram obtidas através da tortura" e as conclusões "não estão baseadas em provas científicas", explicou Maldonado, do Artículo 19.

A procuradoria de Chihuahua encerrou as investigações sobre o caso Breach, apesar de os suspeitos estarem foragidos.

No "abismo"

Em maio, após o assassinato de Valdez, 39 veículos de comunicação mexicanos e estrangeiros expressaram sua indignação em um pronunciamento conjunto, enquanto várias manifestações se organizaram nos estados onde foram assassinados repórteres este ano.

Pressionado, o presidente Enrique Peña Nieto abordou pela primeira vez a crescente violência contra jornalistas, convocou uma reunião extraordinária com os governadores do país e prometeu "medidas extraordinárias".

A procuradoria-geral ofereceu nesta terça-feira uma recompensa de cerca de 81.500 dólares por pistas que levem aos assassinos de Pineda, Valdez, Rodríguez e Breach.

"Há uma boa intenção, mas deixa muito a desejar, porque nos fatos não se vê essa vontade" das autoridades, avalia Flores. "No México, navegamos neste limbo. E entre a vontade e os fatos, há um abismo".

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