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Rosa de plástico é vista nos escombros de um prédio no bairro de Shejaiya, Gaza, em 7 de agosto de 2014

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A tensão aumentava nesta quinta-feira à noite, depois que os palestinos levantaram a possibilidade de retomada dos combates contra Israel, durante discussões sobre a ampliação do frágil cessar-fogo em vigor desde a última terça, 5 de agosto, na Faixa de Gaza.

Israelenses e palestinos realizam no Cairo negociações bastante difíceis, com mediação do Egito, para que o cessar-fogo que expira amanhã, sexta, às 08h00 (02h00 de Brasília), transforme-se em uma trégua duradoura.

"Não estou certo de que a batalha tenha terminado", disse o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, à rede americana Fox News, nesta quinta-feira.

"Tudo depende de se querem continuar essa batalha. Eu acho que devemos encontrar uma solução pacífica. Sim, é possível", declarou o premiê, garantindo que Israel não tem "nada contra o povo de Gaza" e quer ajudá-lo a se livrar da "tirania espantosa" do Hamas, a organização islâmica que controla a Faixa de Gaza.

Em meio às dificuldades que já existem, de Gaza, o braço armado do Hamas fez um apelo à delegação palestina no Cairo para que "não aceite um cessar-fogo, se não obtiver satisfação em relação às demandas do nosso povo". E garantiu estar "disposto a se lançar de novo na batalha".

Como primeira exigência de sua organização, o porta-voz das Brigadas Al-Qassam, Abu Obaida, mencionou a contrução de um porto marítimo. Exigiu ainda "um fim real da agressão (israelense) e uma verdadeira suspensão do cerco".

As Brigadas e a delegação no Cairo "travam a mesma batalha e se completam", disse do Cairo à AFP Izat el Rishq, um dos membros da delegação e um dos dirigentes do Hamas no exílio.

Mais cedo, autoridades palestinas deixaram vazar ameaças, sob anonimato, mas ainda não é possível saber se refletem a realidade da negociação, ou se são uma forma de pressão.

Os palestinos "acreditam, neste momento, que os combates serão retomados amanhã (sexta-feira) pela manhã", disse uma fonte palestina à AFP.

"Se Israel continuar ganhando tempo, não vamos prolongar o cessar-fogo", declarou à AFP um membro da delegação palestina no Cairo, que pediu para não ser identificado.

Oficialmente, Fawzi Barhum, um porta-voz do Hamas, afirmou que ainda não foi tomada qualquer decisão sobre um prolongamento da trégua, ou sobre a retomada dos combates.

Já os israelenses se mostravam extremamente discretos sobre o processo em andamento.

- Viagens entre Israel e o Cairo -

Ansioso para ditar seus termos nas negociações para não parecer que cede às reivindicações do Hamas, Israel tomou a dianteira na noite de quarta-feira e anunciou que está disposto a estender a trégua de forma ilimitada, sem qualquer condição.

Em uma demonstração evidente de que as discussões continuavam, a delegação israelense enviada ao Cairo voltou para Tel Aviv na quinta, provavelmente para receber instruções, voltando para a capital egípcia à tarde - comentou uma autoridade consultada pela AFP.

Uma reunião entre egípcios e palestinos estava prevista para acontecer ainda nesta quinta à noite. Logo depois desse encontro, os palestinos continuarão as discussões entre eles para tomar uma decisão - segundo informações obtidas pela AFP no Cairo.

Além das exigências de ambos os lados, que parecem irreconciliáveis, os negociadores também lidam com a pressão de um terrível registro de perdas humanas.

Iniciada em 8 de julho passado, a operação israelense Barreira Protetora matou 1.890 palestinos, incluindo 430 crianças, de acordo com o Ministério palestino da Saúde. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 73% das vítimas são civis. Do lado israelense, 64 soldados e três civis morreram.

A guerra também pulverizou a já fragilizada economia da Faixa de Gaza, um pequeno território de 360 km2, no qual 1,8 milhão de pessoas tentam sobreviver ao bloqueio imposto por Israel.

- 'Resistência, resistência, resistência' -

Apesar da ameaça do fim da trégua, os moradores de Gaza tentam retomar a normalidade, desde terça-feira, e já se vê engarrafamentos e lojas abertas na região. As imagens de pessoas morando em abrigos improvisados em meio às ruínas de suas casas não deixam esquecer, porém, as semanas de conflito.

Nesta quinta à tarde, centenas de palestinos foram às ruas, atendendo a um apelo do Hamas, para reivindicar a vitória militar, constatou um jornalista da AFP.

"Fomos vitoriosos no campo de batalha e, com a permissão de Deus, também seremos na arena política", afirmou o deputado Mushir al-Masri de uma tribuna.

"Resistência, resistência, resistência", gritou a multidão em resposta.

- Moradores de Gaza 'precisam de esperança' -

Na quarta, o presidente americano, Barack Obama, pediu aos negociadores israelenses e palestinos que cheguem a uma trégua duradoura. Indiretamente, Obama também pressionou seu aliado Israel a aceitar a suspensão de um bloqueio imposto desde 2006 a esse território. Gaza não pode "se manter permanentemente fechada para o mundo", defendeu.

Para Obama, os palestinos que vivem no território controlado pelo Hamas precisam de "esperança". Deve haver "um reconhecimento do fato de que Gaza não pode satisfazer suas necessidades por estar isolada do mundo, incapaz de dar uma oportunidade, empregos, ou crescimento a sua população", completou.

As Nações Unidas também fizeram um apelo nesta quinta pela extensão do cessar-fogo para que as iniciativas humanitárias sejam mantidas.

"O cessar-fogo de 72 horas entre Israel e as facções palestinas, que entrou em vigor no dia 5 de agosto, deve continuar", disse em um comunicado o coordenador de Operações Humanitárias da ONU na Faixa de Gaza, James Rawley.

"Devemos aumentar rapidamente a magnitude de nossa intervenção (humanitária) para atender às necessidades da população de Gaza, agora e a longo prazo. Mas, para isso, precisamos uma trégua duradoura", ressaltou.

Durante os últimos dois dias, equipes humanitárias distribuíram alimentos para "centenas de milhares de pessoas", ressaltou Rawley.

Além disso, estão sendo realizadas obras de reparo nas redes de água e esgoto, acrescentou.

Para os europeus, também é vital oferecer uma perspectiva econômica a Gaza, assim como consolidar a Autoridade Palestina e enfraquecer as forças extremistas, entre elas o Hamas, disse uma fonte diplomática.

Alemães, britânicos e franceses apresentaram na quarta-feira uma iniciativa para que as forças da Autoridade Palestina assumam as fronteiras em Gaza, onde impediriam a construção de novos túneis e a entrada de armas, segundo uma fonte diplomática.

Os postos fronteiriços para Egito e Israel devem ser reabertos, talvez de forma progressiva, e um novo porto deve ser construído em Gaza.

Também nesta quinta, o ex-porta-voz do Hamas Ayman Taha apareceu morto no bairro de Chajaya, em Gaza, violentamente bombardeado por Israel, anunciou o movimento islâmico.

AFP