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Bloqueios e ataques a missões médicas intensificam protestos na Colômbia

Mulher ergue bandeira da Colômbia em meio a homenagens em honra aos mortos nos protestos contra o governo, em Bogotá afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 25. maio 2021 - 17:28
(AFP)

Dentro de uma ambulância, uma médica diz: "acaba de falecer". A vítima é uma recém-nascida que ficou presa em um dos bloqueios de estrada, com os quais os manifestantes radicalizaram os violentos protestos na Colômbia.

"Tentamos reanimá-la, a bebê não respondeu", lamenta a mulher no vídeo que viralizou nas redes sociais, em meio aos protestos contra o governo que completam 27 dias.

A morte da recém-nascida, que ocorreu na madrugada de domingo na rodovia que une o porto de Buenaventura com a cidade de Cali, intensificou a rejeição de uma parte da população ao bloqueio de estradas como forma de protesto.

Segundo o relato da médica, depois que os manifestantes abriram passagem à ambulância, o veículo foi atacado com gás lacrimogêneo e explosivos, sem o conhecimento da identidade dos agressores até o momento.

Nesta terça-feira, centenas de cidadãos de bairros ricos de Cali marcharam em silêncio, vestidos de branco, para exigir o fim dos bloqueios que diariamente interrompem as atividades da terceira maior cidade da Colômbia.

Entre as faixas liam-se frases como "Cali livre" ou "Não ao desemprego".

Dias antes, civis também vestidos de branco pegaram em armas para impedir o fechamento de avenidas por manifestantes. Em Buenaventura, principal porto do Pacífico, também bloqueado pelos protestos, não foi diferente.

Em 4 de maio, o governo de Cundinamarca (centro) denunciou que uma mãe em trabalho de parto perdeu seu bebê por um ataque contra uma ambulância que se dirigia à cidade de Bogotá, vinda da cidade de Tocancipá.

Encurralado pelos protestos que persistem desde 28 de abril, o governo de Iván Duque exigiu o fim dos bloqueios de rodovias, que causam o desabastecimento em algumas cidades.

O presidente conservador ordenou à força pública que desmontasse à força essas "expressões que são violentas", apesar da condenação da comunidade internacional aos excessos cometidos pela polícia na repressão das manifestações.

- Missões sob ataque -

A crise social deixa até o momento 43 mortes, quase todas civis, e mais de 2.000 feridos, enquanto persistem 84 bloqueios de estradas que afetam particularmente departamentos do oeste do país, como Valle del Cauca, onde se encontram Cali e o porto de Buenaventura, e Risaralda.

Entrevistados na mídia local, manifestantes afirmam que os bloqueios rodoviários são a única forma de protesto eficaz que encontraram para serem ouvidos pelo governo diante da aguda deterioração econômica provocada pela pandemia.

Junto com a preocupação em relação aos bloqueios está a gerada pelos ataques à missão médica, assunto que não aparece na agenda pública das negociações entre o governo e os manifestantes, que já completaram mais de uma semana sem avanços concretos.

Os ataques a ambulâncias e pessoal médico degradaram os protestos que começaram por causa da carga tributária que o governo pretendia aplicar, como forma de enfrentar o déficit fiscal causado pela pandemia.

O presidente Duque arquivou o projeto tributário, mas a repressão policial causou mais revolta nos manifestantes que, sem uma opinião definida, pedem reformas que apontem para um Estado mais solidário e uma sociedade menos desigual.

Entre os inúmeros vídeos veiculados nas redes sociais, estão os ataques de civis e militares contra pessoas e veículos que carreguem o emblema da cruz branca sobre fundo azul e vermelho.

Em Cali, civis em caminhonetes até atiraram em missões médicas, acontecimento que até o momento continua sem progresso quanto as investigações judiciais.

"Duas semanas atrás, tivemos problemas para conseguir oxigênio nos hospitais de Bogotá. Por quê? Porque eles bloquearam as estradas. Eles pararam as ambulâncias da Cruz Vermelha com pessoas que procuravam um hospital, e dois bebês morreram em uma ambulância", informou a ministra das Relações Exteriores e vice-presidente Marta Lucía Ramírez durante reunião em Washington.

Na quarta-feira, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) exigiu o fim dessas agressões.

"Isso deve acabar. Esses ataques são incompatíveis com nosso direito à saúde e colocam em risco a integridade, a missão e o próprio propósito da saúde e da ajuda humanitária", declarou a diretora da Opas, Carissa Etienne, em uma entrevista coletiva.

A titular do escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou que nas últimas três semanas foram registrados mais de 140 incidentes contra missões médicas na Colômbia, em sua maioria "nos pontos focais" das manifestações.

Isso inclui, segundo dados de entidades públicas e privadas, ameaças, hostilidades e ataques contra trabalhadores da saúde, assim como vandalismo e roubo de ambulâncias e outros veículos que transportam pessoal médico, medicamentos e outros suprimentos essenciais em meio à pandemia do novo coronavírus.

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