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Bolívia volta às urnas atingida por pandemia e crise econômica

O candidato presidencial boliviano, Carlos Mesa, discursa em comício em Santa Cruz, na Bolívia afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 15. outubro 2020 - 16:52
(AFP)

Os bolivianos elegem um novo presidente, neste domingo (15), nas primeiras eleições em duas décadas sem Evo Morales como candidato, embora sua figura tenha alimentado a polarização em uma campanha tensa marcada pela pandemia e pela deterioração econômica.

Há exatamente um ano, mais de sete milhões de bolivianos votaram em uma eleição em que Morales, o primeiro presidente indígena e de esquerda, buscava uma terceira reeleição.

Acusações de fraude eleitoral, opositores nas ruas e a perda de apoio dos líderes militares levaram, porém, à sua renúncia e abriram uma crise política.

O esquerdista Luis Arce, considerado o arquiteto do "milagre econômico" da Bolívia e afilhado político de Evo, e o ex-presidente centrista Carlos Mesa (2003-2005) são os únicos entre sete candidatos com chances reais de vitória, segundo as pesquisas.

As chances são altas de que a disputa seja decidida em um segundo turno, previsto para 29 de novembro.

"A Bolívia precisa recuperar o caminho da estabilidade e do crescimento econômico com justiça social", disse Arce, que chefiou a economia do governo Morales (2006-2019).

Mas Mesa afirma que o sucesso econômico de Arce e Morales não foi "por mérito próprio", mas graças aos altos preços das matérias-primas. Segundo ele, "os resultados foram palácios, aviões, luxo, desperdício, corrupção".

Essas eleições marcarão o fim do governo de transição da direitista Jeanine Áñez, que assumiu o cargo quando Morales renunciou em novembro de 2019, após 14 anos no poder, em meio a fortes protestos e confrontos com a polícia.

Dominado pelo Movimento pelo Socialismo de Morales, refugiado na Argentina há dez meses, o Congresso também será totalmente renovado.

Morales venceu três eleições por uma maioria confortável desde 2005, mas agora deve se contentar em servir como chefe de campanha de Arce em Buenos Aires e em meio à pandemia que forçou os candidatos a limitarem seus movimentos às redes sociais.

"O nível das propostas caiu", diz à AFP o analista Carlos Borth, referindo-se ao fato de os candidatos proporem apenas generalidades.

A Bolívia é um dos países mais pobres da América do Sul, apesar de seus vastos recursos naturais, principalmente hidrocarbonetos e lítio, e tem a maior taxa de população indígena da América Latina.

- "Crise muito séria" -

Sob Morales, a Bolívia aumentou seu Produto Interno Bruto de US$ 9,5 bilhões anuais para US$ 40,8 bilhões e reduziu a pobreza de 60% para 37%, de acordo com dados oficiais.

A nacionalização dos hidrocarbonetos em 2006 deu ao Estado recursos abundantes, o que permitiu melhorar a distribuição de renda, mas os críticos de Morales dizem que ele não realizou reformas econômicas estruturais que garantissem o crescimento sustentado.

Agora, a situação econômica mudou dramaticamente e quem quer que seja o novo presidente enfrentará severas restrições financeiras.

"Estamos muito próximos de uma grave crise econômica", avisa à AFP o presidente da Fundação Milenio, economista Roberto Laserna.

No plano internacional, o que está pendente para o novo governo é a normalização das relações com os Estados Unidos (não há embaixadores desde 2008). Também é preciso melhorar os laços com a vizinha Argentina, deteriorados pelo asilo a Morales.

Outro desafio é retomar a esquecida cruzada para recuperar uma saída para o mar, perdida na guerra de 1879, após o revés sofrido há dois anos na Corte de Haia. O tribunal decidiu que o Chile não tinha obrigação de negociar para dar acesso ao Pacífico.

Como aconteceu em 2019, os rivais de Morales não conseguiram se unir nesta campanha. Sete candidatos então se lançaram, incluindo a própria Jeanine Áñez, que no final retirou sua candidatura.

Carlos Mesa, principal rival de Morales em 2019, agora tem chances reais de vencer Arce.

As pesquisas apontam o direitista Luis Fernando Camacho em terceiro lugar. O líder conservador esteve à frente dos protestos que levaram à renúncia de Morales, mas não conseguiu capitalizar seu momento de glória.

Outros quatro candidatos chegam com menos apoio às eleições, nas quais o Movimento pelo Socialismo (MAS) de Arce e Morales põe em jogo sua maioria nas duas casas do Congresso.

Mais de 7,3 milhões de cidadãos são convocados para votar no domingo entre 8h e 17h locais. Os primeiros resultados oficiais serão conhecidos em torno de três horas depois.

Também vão votar 340 mil bolivianos residentes em outros 30 países, principalmente na Argentina, Espanha e Brasil.

A Constituição declara vencedor no primeiro turno o candidato que obtiver maioria absoluta, ou 40% dos votos com 10 pontos de vantagem sobre o segundo. Caso contrário, haverá segundo turno.

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