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Bolsonaro muda a cara do seu governo ao substituir ministros mais polêmicos

O então ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles (E) discursa ao lado do presidente Jair Bolsonaro durante manifestação de fazendeiros contra o Supremo Tribunal Federal e pedindo o fim das restrições anticovid, em Brasília, no dia 15 de maio de 2021 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 25. junho 2021 - 17:39
(AFP)

O presidente Jair Bolsonaro dispensou seus três ministros mais polêmicos nos últimos meses para tentar melhorar a imagem desastrosa do país e agradar setores que lhe permitam evitar o impeachment e ser reeleito em 2022, segundo analistas consultados pela AFP.

As mudanças, porém, nas pastas de Meio Ambiente, Relações Exteriores e Saúde são principalmente referentes à aparência, destacam os especialistas, porque excluem mudanças mais profundas no combate ao desmatamento ou à pandemia do coronavírus, que já deixou mais de meio milhão de mortos no Brasil.

"O fato de que esses três ministros enfrentam muita resistência lá fora pesou muito na decisão do presidente de substituir os três, e também tiveram fatores internos", afirma Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas.

Mas "são mudanças mais na aparência do que na essência", acrescenta.

O último a cair, nesta quarta-feira, foi o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Sua permanência no cargo se tornou insustentável depois que o Supremo ordenou uma investigação sobre sua suposta relação com operações madeireiras e contrabando ilegal de madeira.

Salles foi criticado pela comunidade internacional e por grupos ambientalistas, acusado de promover o aumento alarmante do desmatamento na Amazônia, reduzir orçamentos de órgãos de controle e defender a exploração de recursos em áreas protegidas.

O setor do agronegócio também considerou que essa política ambiental prejudicou a imagem do Brasil como potência agroexportadora e dificultou a ratificação europeia do acordo comercial entre a UE e o Mercosul.

A situação de Salles ficou ainda mais sombria com a eleição do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, comprometido a combater o aquecimento global, ao contrário de seu antecessor Donald Trump, aliado de Bolsonaro.

- "Sem mudança de 180º" -

Em seu lugar, Bolsonaro nomeou Joaquim Álvaro Pereira Leite, secretário do ministério e ex-conselheiro da Sociedade Rural Brasileira (SRB), o que segundo ONGs pressagia pouca mudança no rumo da pasta.

"Essas mudanças, como a de Salles, não trazem mudanças políticas significativas. (Os ministros) saem com o presidente elogiando o trabalho que foi feito e com sucessores que podem fazer alterações pontuais, mas que não serão um giro de 180º nas políticas das suas respectivas pastas", disse o analista político Thomaz Favaro, da Control Risks.

No final de março, foi a vez do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, um dos dois principais nomes da "ala ideológica" do governo, com sua cruzada contra o "marxismo cultural" e o "globalismo".

Seus críticos apontavam seu alinhamento automático com a diplomacia de Trump e atribuíam às suas frequentes altercações com a China - o maior parceiro comercial do país - a dificuldade em adquirir vacinas e insumos para o combate ao coronavírus.

O agronegócio arrancava os cabelos cada vez que Araújo falava algo sobre Pequim, como quando se posicionou contra a participação da China na futura rede 5G brasileira.

"A China não está feliz com Araújo e a saída dele ajudou a reduzir as tensões", explica Stuenkel.

Duas semanas antes, o general Eduardo Pazuello, o terceiro ministro da Saúde do governo Bolsonaro, havia renunciado.

Sua saída era prevista por sua catastrófica gestão da pandemia, principalmente após a crise no fornecimento de oxigênio em Manaus, que em janeiro causou a morte de dezenas de pessoas por asfixia.

Pazuello foi substituído pelo médico Marcelo Queiroga, que tenta conciliar as medidas básicas de saúde para contenção da doença com o discurso de Bolsonaro contra o uso obrigatório de máscaras e favorável a tratamentos sem eficácia comprovada no enfrentamento à covid-19.

- "Um gesto na direção do 'centrão'" -

Para o cientista político Thiago Vidal, da consultoria Prospectiva, os revezamentos Araújo e Pazuello também foram "um gesto" de Bolsonaro em direção ao "centrão".

Este apoio é essencial para Bolsonaro, com popularidade em queda e tendo recebido dezenas de pedidos de impeachment no Congresso.

O presidente é também alvo de uma investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), sobre suposta responsabilidade de seu governo no fracasso do enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

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