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Brasil ultrapassa 150 mil mortos pela Covid-19

Funcionário no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 10. outubro 2020 - 22:41
(AFP)

Quase oito meses após o primeiro caso de Covid-19 no país, o Brasil ultrapassou neste sábado a marca de 150.000 mortos pela pandemia, que retrocede lentamente, enquanto a população acelera o retorno a uma normalidade perigosa.

Com 212 milhões de habitantes, o Brasil acumula 150.198 óbitos e 5.082.637 casos, segundo o Ministério da Saúde, sendo o segundo país com mais mortos, atrás dos Estados Unidos, e o terceiro em número de infectados, atrás da Índia.

Após o primeiro caso, em 26 de fevereiro, e a primeira morte, em 16 de março, o Brasil viu os números crescerem até superarem um platô de 1.000 mortes diárias por quase dois meses, que começou a ceder em agosto (932) e setembro (752). Nos primeiros nove dias de outubro, a média diária é de 630 falecimentos.

A média de infecções diárias caiu de 40.659 em julho para 30.000 em setembro e 27.200 até agora em outubro. Especialistas, porém, acreditam que o Brasil atravessa um momento de platô com números ainda considerados elevados, diferentemente dos países europeus e asiáticos, que, após alcançarem o auge da pandemia, viram uma queda mais drástica nos contágios e mortes.

"Chegamos a ter 55.000 casos por dia, mas continuamos com 27.000. Sim, é possível dizer que caiu mais de 50%, mas é como se você descesse do Himalaia para os Alpes, quer dizer, você continua na montanha", explicou à AFP José David Urbaez, pesquisador da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

"Depois das mortes caírem para 600, ainda haverá um caminho enorme pela frente, com muitas perdas", completou.

- Sem plano nacional -

O longo platô coincide com a reabertura de mais atividades não essenciais, que, segundo os pesquisadores, está sendo feita sem coordenação nacional nem vigilância epidemiológica adequada, o que se soma ao não cumprimento das medidas preventivas pela população.

"É quase impossível não retomar as atividades" em um país que é testemunha desde março do desaparecimento de mais de 10 milhões de empregos, afirmou o pesquisador Christovam Barcellos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

"O comércio e algumas indústrias são importantes, mas isso deveria ser feito com muito cuidado e a gente observa que, infelizmente, o Brasil não tem uma coordenação nacional de procedimentos dessa retomada", completou, em declarações à AFP.

Desde o início da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro, que teve a doença em julho, bate de frente com governadores e prefeitos, que têm autonomia em temas da saúde. Bolsonaro minimiza a gravidade do vírus e incentiva o retorno à normalidade, para evitar o colapso da economia, aparecendo sem máscara em atos oficiais ou ao lado de apoiadores, como ocorreu hoje, durante um passeio de moto do presidente pelo Guarujá, litoral de São Paulo.

"Essa imagem do presidente é terrível para que possamos ter uma ideia unificada do que é a pandemia no Brasil", estimou Christovam Barcellos. Governadores e prefeitos, por outro lado, colocaram em prática medidas de isolamento social, mas, há alguns meses, autorizaram mais atividades, como o turismo local e a reabertura de bares e restaurantes.

Estão em vigor medidas de prevenção, mas as praias do Rio de Janeiro e de outras cidades, por exemplo, costumam ficar lotadas a cada fim de semana com banhistas sem máscaras, apesar da proibição municipal.

"Acho que estamos ficando anestesiados por esta situação. Ouvimos tantas coisas ruins que acabamos nos acostumando. O ideal é que cada um cuide de si e faça o que puder", avaliou o estudante Caio Gomes durante um passeio pela Praia de Copacabana.

- À espera da vacina -

Apesar dos erros, os dois especialistas destacam que o sistema de saúde tem conseguido melhorar o atendimento aos infectados e o tratamento dos pacientes em estado mais grave.

"Não sei se o pior já passou porque a gente não sabe o que está por vir, mas certamente tivemos momentos piores do que o atual", analisou para a AFP Jaques Sztajnbok, chefe da unidade de terapia intensiva do Instituto de Infectologia Emílio Ribas de São Paulo, estado líder em mortes por covid-19 no país.

"Muita coisa evoluiu desde o inicio do enfrentamento, então hoje, se a gente for olhar, a taxa de ocupação [da UTI] não é mais de 100%", completou.

No Brasil são realizados atualmente testes de quatro vacinas contra a Covid-19. O governo espera produzir 140 milhões de doses no primeiro semestre de 2021. Urbaez, porém, aconselha evitar um excesso de otimismo.

"Acredita-se que a vacina resolverá definitivamente o problema, e isso é difícil de afirmar", explicou o infectologista, que lembrou da importância de um longo processo para que se tenha uma produção e uma distribuição de sucesso.

Enquanto isso, o Brasil terá que enfrentar a pressão sobre a economia, assim como o restante do mundo. O governo amenizou o golpe com ajudas emergenciais para quase um terço da população.

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