AFP

(Arquivo) Sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, no dia 29 de maio de 2012

(afp_tickers)

O Brasil voltou a crescer, depois de dois anos de grande contração econômica. No entanto, ainda é prematuro dizer se o país saiu da pior recessão de sua história ou se terá uma recaída, em meio ao cenário de incerteza política.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil registrou no período janeiro-março uma expansão de 1% em relação ao trimestre anterior, coincidindo com as previsões dos analistas.

Trata-se do primeiro resultado positivo depois de oito trimestres de contração, informou o IBGE. Em outubro-dezembro de 2016, retrocedeu 0,5%.

Em relação ao primeiro trimestre de 2016, o PIB da principal economia latino-americana se contraiu 0,4%, e no acumulado de quatro trimestres a contração chega a 2,3%.

Esses dados apontam uma melhora significativa em relação aos resultados dos dois últimos anos, quando o PIB teve queda de 3,8% em 2015 e de 3,6% em 2016.

Por setor, o aumento trimestral registrou um impressionante crescimento da Agricultura, de 13,4%, graças ao maior volume das colheitas e à boa resistência dos preços das commodities. A indústria cresceu 0,9% e os serviços permaneceram estáveis (0%).

As estimativas do mercado indicam um crescimento do PIB em torno de 0,5% este ano. Mas essas previsões não tiveram tempo de incorporar plenamente o fator de incerteza que se instalou há duas semanas, após a divulgação das gravações da conversa do presidente Michel Temer com o empresário Joesley Batista sobre a suposta compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha.

- Um 'dia histórico'? -

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, comemorou por meio de nota à imprensa "um dia histórico" para o país.

"Depois de dois anos, o Brasil saiu da pior recessão do século. Nesse período, milhões de brasileiros perderam seus empregos, milhares de empresas quebraram e o Estado caminhou para a insolvência. O Brasil perdeu a confiança dos investidores e a confiança em si mesmo", escreveu.

"Ainda há um caminho a ser pecorrido para alcançarmos a plena recuperação econômica, mas estamos na direção correta", acrescentou.

Nesta quarta-feira, o IBGE anunciou uma queda inesperada da taxa de desemprego, que se encontra em 13,6%, atingindo 14 milhões de pessoas. A inflação, que era de 10,67% em 2015, hoje se encontra abaixo da meta oficial de 4,5%.

Os mercados, contudo, temem que a instabilidade política comprometa o avanço das reformas trabalhista e previdenciária.

Na semana passada, a agência de classificação de risco Standard and Poor's informou que poderá rebaixar a nota de risco soberano do Brasil por temores de "paralisia política".

O analista e ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni mantém sua aposta "em um crescimento modesto em 2017, em torno de 0,5%". No entanto, "em um cenário extremo de aprofundamento da crise política, poderia haver um crescimento nulo do PIB, com estagnação econômica", alertou Langoni em declaração à AFP.

- Brasil, um ativo 'barato' -

Mauro Rochlin, professor de macroeconomia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, acredita que a recuperação do trimestre se deve, em parte, ao baixísimo nível atingido pela economia.

"Havíamos chegado a um nível tão baixo, que as empresas começaram a revisar suas condições de produção. O preço da mão de obra caiu e o Brasil se transoformou em um ativo mais barato. Isso ayuda que as empresas deixem de cortar investimentos", disse Rochlin à AFP.

Rochlin lembra que um trimestre a mais de crescimento não configura uma saída técnica da recessão, o que, para a maioria dos analistas, requer dois trimestres consecutivos de expansão.

Apesar de tudo, acredita-se que vários indicadores marcam uma "tendência de recuperação, embora ainda sobre bases muito pequenas".

AFP

 AFP