AFP

O índio Raoni Metuktire, no Rio de Janeiro, em 24 de fevereiro de 2017

(afp_tickers)

Os jovens indígenas brasileiros perderam o interesse por sua cultura ancestral, alertou em Brasília o cacique Raoni Metuktire, líder da etnia caiapó e rosto internacional da causa indígena.

"Estou muito preocupado com a geração jovem", disse à AFP este cacique octogenário, usando cocar de penas amarelas sobre os longos cabelos grisalhos, enorme disco labial que se move com cada frase e colares de várias voltas sobre o peito nu.

"Os jovens não estão interessados em nossa cultura, a música tradicional, o cocar, a dança, todos os nossos costumes", lamentou Raoni, que ficou famoso em todo o mundo em 1989, depois de sair em turnê com o cantor Sting para defender a floresta amazônica.

O cacique participou esta semana do 14º acampamento indígena Terra Livre, que reuniu em Brasília mais de 3.000 representantes de etnias de vários países latino-americanos para denunciar uma ofensiva conservadora que ameaça seus territórios e costumes.

Sentado em uma cadeira de plástico em uma das grandes tendas do acompanhamento, Raoni aceita posar com indígenas e ativistas que fazem fila para se saudá-lo.

"Os jovens têm que continuar com essa luta que estamos fazendo aqui, defendendo os direitos", reclama, perguntado sobre o futuro das reivindicações indígenas.

Lutar "até o fim"

Durante a entrevista, Raoni responde em dialeto caiapó e faz gestos amplos com a mão, apontando para si próprio ou para a câmera para enfatizar uma declaração. Um de seus sobrinhos, Takakpe Tapayuna Metuktire, permanece sentado ao seu lado e ao fim de cada frase, ele a traduz ao português.

"Desde quando era jovem, eu venho lutando contra o desmatamento, venho lutando contra a retirada de madeira dentro da terra indígena e eu não aceitado a diminuição de demarcação da nossa terra. Tem vários projetos hoje nos governos que estão ameaçando nos, indígenas", denunciou Raoni.

Como ele mesmo explica, as reivindicações dos povos indígenas do Brasil e do continente não são novas: a devastação de suas terras por grandes projetos de infraestrutura, ameaças e execuções de seus líderes, ordenadas por representantes do agronegócio, demoras no reconhecimento de seus territórios.

Mas com a chegada de Michel Temer ao Executivo, no ano passado, e um Parlamento sob forte influência de grandes produtores agrícolas, iniciativas que poderiam restringir o direito das tribos a permanecer em suas terras foram ganhando força.

Exemplo disto é uma reforma que tramita no Congresso e busca transferir do Executivo ao Legislativo a competência para demarcar estas terras.

Isto, de fato, suspenderia a demarcação, sustentam os defensores das causas indígenas.

Os caiapós se situam nos estados de Mato Grosso (centro-oeste) e Pará (norte).

De acordo com o último censo (2010), no Brasil moram 896.900 indígenas de 305 etnias, 0,4% da população de 202 milhões de habitantes.

Suas terras ocupam 12% do território e boa parte se concentra na Amazônia.

Há muitas terras pendentes de reconhecimento em áreas povoadas e ocupadas por colonos, que chegaram com a exploração da fronteira agrícola, um conflito que muitas vezes termina em sangue.

Mas nem o mais obscuro dos panoramas fará o lendário líder Raoni perder a esperança.

"O Brasil é a terra da minha mãe, dos meus avós, dos meus bisavós", explica. E promete: "Lutarei até o fim".

AFP

 AFP