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Um caixão de papelão é visto em Barquisimeto, Venezuela, no dia 9 de agosto de 2016

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Os venezuelanos têm tido dificuldades para resolver a vida cotidiana, mas a crise também os castiga na hora da morte. O alto custo e a escassez de materiais complicam a aquisição de caixões e, por isso, estão sendo fabricados com madeira barata e até papelão.

Muitos parentes fazem malabarismos para lidar com os gastos de um funeral: se preferirem a cremação à sepultura para não pagar uma cova no cemitério, o velório se reduz de 24 a oito, quatro ou duas horas. Alguns contratam somente o "serviço direto" para o crematório ou túmulo, e há os que aluguem o caixão apenas para o velório.

Há um mês morreu o irmão de Miriam Navarro, uma humilde dona de casa de 66 anos. "Me senti desesperada. Não tinha a fortuna que a funerária pedia. Se não fosse pela comunidade, teria que enterrá-lo no quintal", disse à AFP em sua casa em um bairro de Maracay, 105 km ao sudoeste de Caracas.

Com o que seus vizinhos arrecadaram, Miriam comprou um dos caixões fabricados, a poucas ruas de sua casa, pelo carpinteiro Ronald Martínez com papelão e MDF, um material comprimido de pó de serra e resina, que é muito mais barata que a madeira.

Diante dessas dificuldades no último adeus, Elio Angulo, um empresário de Barquisimeto (365 km ao sudoeste da capital), apostou no "biocofre", uma urna de papelão corrugado, 70% feito de produto reciclado, que desenhou com um sócio e logo estará à venda.

"Tem os dois ecos: ecológico e econômico. É para a cremação, mas também pode ser usado na exumação. Nossa proposta traz soluções para um país em crise", declara à AFP Angulo, que diz ter pedidos de várias cidades, e também da Colômbia e Equador.

Em um país onde o salário mínimo mensal é de 65.000 bolívares (US$ 100 na taxa oficial mais alta), os custos dos serviços funerários preocupam uma população afetada pela escassez de alimentos e pela inflação mais alta do mundo - oficialmente 180,9% em 2015, projetada para 720% para 2016 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Morrer empobrece!

Martínez montou sua funerária há cinco anos, mas há dois teve que começar a fabricar os caixões porque "não conseguiam" diante da falta de metal para elaborar os de latão, os mais usados na Venezuela pelo alto custo da madeira.

A crise começava a aumentar, e o presidente Nicolás Maduro a atribuiu a uma "guerra econômica" de empresários e à queda do preço do petróleo, provocando uma enorme redução das importações e da produção.

Trinta fábricas de urnas funerárias do país requerem 450 toneladas de latão mensalmente, mas o abastecimento da Indústria Siderúrgica, estatal, tem sido irregular.

"Em um mês só foi entregue 60 toneladas. Temos que recorrer a mercados secundários e isso encarece os custos", segundo Juan Carlos Fernández, diretor da Câmara Nacional de Empresas Funerárias.

Recostado em um caixão ainda sem pintar, Martínez, de 40 anos, relembra, em meio ao esforço de sua atividade, que há cinco anos um caixão custava 720 bolívares, o preço de um pão de forma hoje.

"Um serviço funerário custava 4.500 bolívares, e agora o mais em conta é 280.000, podendo chegar a 400.000, 600.000. É mais caro morrer do que estar vivo", manifesta.

Um caixão de latão custa entre 85.000 e 120.000 bolívares, um de MDF ou papelão de 55.000 a 80.000. "Esse é o mais econômico e ninguém descobre que não é de madeira ou é de segunda, porque muda-se dentro e às vezes pode pintar novamente", diz Martínez, que cobra 25.000 bolívares por caixão.

Angulo considera que alugar caixões violenta as normas de higiene e defende que os biocofres - para cumpri-las - serão colocadas em um caixão, pago pelas funerárias. "Nosso caixão de papelão custa 50.000 bolívares e aguenta 125 quilos, resistindo mais que os de MDF", afirma.

"Morrer agora empobrece muito. O biocofre é econômico e acessível aos venezuelanos que hoje não têm dinheiro para enfrentar esse momento", assegura.

Angulo conta que alguns corpos "são levados em bolsas" aos crematórios, e Martínez diz que existem defuntos que esperam horas enquanto a família recolhe dinheiro, como ocorreu com Miriam.

Entre soluços, ela recorda que também passou dificuldades quando, há seis anos, seu filho foi morto por 15 tios, sem que "até hoje" saiba o porquê.

"Tampouco tinha como enterrá-lo. Se na funerária financiam, logo você deve ter rios de dinheiro para pagar, porque são capazes de tirar o morto e levar o caixão embora", ilustra a mulher.

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AFP