Conteúdo externo

O seguinte conteúdo vem de parceiros externos. Nós não podemos garantir que esse conteúdo seja exibido sem barreiras.

O cardeal cubano Jaime Ortega, em Havana, no dia 16 de julho de 2015

(afp_tickers)

O cardeal cubano Jaime Ortega, artífice do fim das tensões entre a Igreja católica e o Estado comunista, é um dos homens mais influentes em Cuba e interlocutor privilegiado do presidente Raúl Castro.

Junto a Raúl, Ortega dará as boas-vindas neste sábado ao papa Francisco no aeroporto de Havana, primeira escala de uma histórica visita a Cuba e Estados Unidos, nações que o pontífice argentino ajudou a reconciliar.

De sorriso permanente, modos suaves e paciência de Jó, este homem de 78 anos, que em sua juventude parecia o ator Marlon Brando, sentiu na pele a perseguição aos religiosos nos primeiros tempos do regime revolucionário.

Tornando-se sacerdote aos 28 anos, em 1964, tornou-se bispo de Pinar del Rio (oeste) por João Paulo II em 1978. O mesmo pontífice o nomeou arcebispo de Havana em 1981 e cardeal em 1994.

Em entrevista recente, contou que o papa polonês o nomeou cardeal vislumbrando as "possibilidades desta Igreja de estar, viver, se desenvolver e crescer" na ilha.

Seu trabalho como cardeal começou em uma Cuba castigada pela pior crise econômica, após o desaparecimento do bloco soviético e teve que encarar as tensões geradas pela carta pastoral "O amor sempre espera", de 1993, na qual os bispos cubanos pediam o abandono do projeto comunista.

"Desde suas primeiras homilias, Ortega se comporta como um pastor distinto, com um grau de abertura e disposição ao diálogo", disse à AFP o sociólogo cubano Aurelio Alonso, especialistas nas relações Igreja-Estado.

Esta atitude facilitou a visita do papa João Paulo II em 1998 e o início de um inédito diálogo com Raúl Castro em 2010, que conduziu a libertação de 130 presos políticos.

Este diálogo deu maior espaço à Igreja na sociedade cubana e favoreceu a visita de Bento XVI em 2012.

"Tive uma relação muito próxima" com os três últimos papas, relatou Ortega, contando uma história com seu amigo, o cardeal argentino Jorge Bergoglio, no dia que foi eleito papa em março de 2013.

Após duas votações dos cardeais para eleger o sucessor de Bento XVI, Ortega disse ao seu colega argentino: "olha Jorge, esta tarde você será papa", ao que Bergoglio respondeu: "se a tortilha não virar".

"Nunca desejei morar fora de Cuba"

Nascido em 18 de outubro de 1936 no povoado agrícola de Jagüey Grande (leste), o filho único do comerciante Arsenio Ortega e da dona de casa Adela Alamino, viveu desde os cinco anos na cidade de Matanzas, 100 km a leste de Havana, onde realizou seus estudos e aprendeu piano.

Durante sua juventude acompanhou com o piano amigos músicos, apesar de ser "um pouco popularesco", segundo admite. Hoje, em seus poucos momentos de descanso, escuta música clássica de grandes pianistas.

Após um ano na universidade, entrou em 1956 no seminário diocesano San Alberto Magno em Matanzas, onde estudou filosofia e humanidades nos anos da luta guerrilheira que levou Fidel Castro ao poder em 1959.

Em 1960, foi enviado para estudar teologia no Seminário de Missões Estrangeiras em Montreal, Canada, pelo qual não esteve em Cuba na época de maior tensão entre o Estado e a Igreja.

Em 1964 voltou a Cuba, onde foi consagrado sacerdote em 2 de agosto.

Seu trabalho sacerdotal foi interrompido durante oito meses em 1966, quando foi recrutado pelas Unidades Militares de Apoio à Produção (UMAP), campos de internação para religiosos, homossexuais e outros mal vistos, devido ao serviço militar obrigatório.

Na sua saída da UMAP, seu pai lhe propôs que emigrasse, mas ele não aceitou. "Nunca desejei viver fora de Cuba (...), país que amo com a alma", contou em 2011.

Ao completar 75 anos em 2011 apresentou sua renúncia como arcebispo de Havana, tal como estabelece o Código de Direito Canônico, mas o Vaticano o manteve no cargo.

Leitor incansável e amigo do escritor cubano Leonardo Padura, recebe no arcebispado os dignitários que visitam a ilha, recentemente o presidente francês, François Hollande, e o secretário de Estado americano, John Kerry.

AFP