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Carlos Fernando Chamorro, um jornalista que incomoda o poder na Nicarágua

O jornalista nicaraguense Carlos Fernando Chamorro, durante entrevista à AFP, em 18 de dezembro de 2018 em Manágua afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 19. dezembro 2018 - 19:09
(AFP)

O jornalista nicaraguense Carlos Fernando Chamorro, que fiscaliza a corrupção há mais de uma década, tem enfrentado a ira do governo. A polícia ocupou e vasculhou os escritórios de seu jornal Confidencial em uma tentativa de silenciá-lo.

Chamorro denunciou nesta quarta-feira (19) ao Ministério Público o chefe de polícia, Francisco Díaz, por "roubo, abuso de autoridade e crime organizado", ao vasculhar e apreender bens do jornal Confidencial e outros veículos de mídia críticos ao governo.

Com estilo direto, Chamorro, de 62 anos, não hesita em chamar o presidente Daniel Ortega de "ditador sedento de sangue" e acusá-lo de se apegar ao poder por meio do terror. Ele também é considerado um jornalista crítico, mas não um político da oposição.

O comunicador, com uma trajetória profissional que nos círculos jornalísticos e intelectuais é considerada impecável, já foi mencionado como potencial candidato à Presidência. Ele diz que não se vê nesse papel, mas também não descarta a possibilidade.

"Ao questionar o poder, ao me confrontar com o poder, fui atacado pelo poder, mas não estou associado a um movimento político de oposição", esclarece.

A imagem da polícia de choque empurrando, gritando e insultando Chamorro e outros jornalistas que cobriam sua presença na sede da polícia provocou reações de condenação ao governo por parte da população e da comunidade internacional.

A irmã do jornalista, Cristiana Chamorro, denunciou em suas redes sociais "um vídeo de Murillo chamando nossa família de "traidores e vendedores da pátria", em uma ameaça direta contra a segurança e a vida de CFCh (siglas do nome de seu irmão). Qualquer coisa que aconteça a ele ou à sua família, é responsabilidade de Murillo. Não permitamos outro crime como o de 10 de janeiro de 1978".

Neste dia, seu pai, o também jornalista Pedro Joaquín Chamorro, que lutou contra a ditadura dinástica de Anastasio Somoza, foi assassinado pelo regime, o que provocou um enorme descontentamento social.

Carlos Fernando Chamorro diz que esse fato marcou sua vida e o fez mudar seus planos pessoais para continuar estudando economia. "Entrei no jornalismo e entrei na Frente Sandinista", levado pela busca de uma mudança política, pela teologia da libertação e pelo pensamento da esquerda latino-americana.

Sua mãe, Violeta Barrios de Chamorro, foi eleita presidente (1990-1997) e tornou-se a primeira mulher a ocupar esse cargo na Nicarágua.

Ele é o mais novo dos quatro filhos da ex-presidente, todos eles ligados ao jornalismo.

"Eu me sinto muito orgulhoso da herança e, acima de tudo, do exemplo de meu pai, que foi uma pessoa coerente com seus valores, e também sinto orgulho da minha mãe, que está doente, afastada da política", diz.

"Eu nunca conheci Daniel Ortega na etapa anterior ao triunfo da revolução, nunca o vi cara a cara", diz Chamorro, lembrando sua relação com o atual presidente, que lembra ter sido eleito para liderar uma direção coletiva após a vitória da revolução porque "era alguém bastante disciplinado, opaco".

- Jornalismo, "um contrapoder" -

"Eu quis estabelecer minhas credenciais pelo meu próprio peso. Ou seja, eu não fiz jornalismo às custas da minha família ou à sombra do meu pai ou da minha mãe", diz ele.

Nesse sentido, ele afirma ter tido sucesso em criar o jornal digital Confidencial, e as revistas de televisão Esta Semana e Esta Noche, de linha investigativa e que, apesar da ocupação policial de suas instalações, continuam a ser divulgadas.

A ocupação da propriedade das empresas jornalísticas Chamorro é parte das ações contra nove organizações cívicas e de direitos humanos que o parlamento tirou seu status legal e acusou-os de golpistas e terroristas.

Chamorro nega que os seus veículos midiáticos estejam relacionados às ONGs perseguidas no contexto atual da "crise terminal" da Nicarágua, onde - após oito meses de protestos contra o governo - a repressão se concentra nas organizações de direitos humanos e na mídia.

"O caminho que escolhi é o caminho do jornalismo independente. Acredito que isso é muito, em um país onde todas as instituições entraram em colapso, o fato de existirem pequenas mídias independentes que fortaleceram sua trajetória, sua credibilidade baseada em valores, de acordo com princípios, para investigar a corrupção é bastante", opina.

"Acho que a imprensa independente é um contrapoder e deve continuar desempenhando esse papel".

"Eu não me considero o melhor jornalista da Nicarágua, na América Latina, mas acho que o trabalho que eu sei fazer bem, e nós plantamos confiança e credibilidade ao longo de todos esses anos e agora estamos colhendo", diz o comunicador.

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