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Efígie de Che em Oleiros, Espanha

(afp_tickers)

Além da imagem de guerrilheiro que defende um ideal, Che Guevara era obcecado com a morte e a ideia de martírio, assinala a pesquisadora franco-argentina Marcela Iacub, que traçou o perfil psicológico do célebre revolucionário.

Marcela é diretora de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (Centro Nacional de Pesquisa Científica) francês e acaba de publicar "Le Che, à mort" (ainda sem tradução em Português).

Seguem abaixo os principais trechos da entrevista concedida à AFP:

PERGUNTA: Por que Che passou a ser uma lenda?

RESPOSTA: Há duas lendas que dizem respeito a Che: a lenda castrista e a lenda "crística", na qual se apoia, sobretudo, o filme hollywoodiano "Che", de Steven Soderbergh.

Para muitos, Che se tornou uma figura "crística" com a foto de seu cadáver. Talvez o mito nunca tivesse existido sem essa foto tirada horas depois de sua execução por parte do Exército boliviano e para a qual seu corpo foi preparado (seu cabelo foi cortado, e se injetou formol no rosto).

Vários fotógrafos chegaram depois ao local onde o corpo estava exposto. Graças à luz dos flashes, os olhos de Che estavam cheios de luz.

O mundo inteiro viu essa foto perfeita, com a qual Che mostrou que era um mártir no sentido cristão do termo, porque parece ter-se entregado a seus carrascos em um estado de satisfação.

Em contrapartida, as fotos tiradas logo depois de sua execução foram escondidas durante 20 anos. São horríveis e nunca teriam dado lugar a um culto como esse.

P: Che Guevara também é o símbolo do revolucionário defendendo um ideal?

R: Em sua adolescência, não era nem comunista, nem estava comprometido politicamente, mas havia decidido morrer muito jovem, como um mártir. É o que se pode ler em alguns de seus poemas.

Naquela época, já se condenava a morrer como um herói. Em seus "Diários de Motocicleta" (sobre seu périplo pela América Latina aos 20 anos), já imaginava seu destino.

Para fazer uma análise psicológica do personagem, eu me baseei em seus escritos. Antes de mais nada, queria lhe dar a palavra, porque também escrevia bem. Acredito que tenha inventado seu personagem desde sua juventude, lendo romances de aventuras.

Tinha um ideal muito elevado para si mesmo, provavelmente, porque sua família era aristocrática, mas havia caído na miséria. Queria salvar a humanidade, tornando-se um grande cientista quando era jovem. Estudou Medicina. Como não teve êxito por esse caminho, tentou liderar uma guerra total e definitiva contra o capitalismo... Queria que a humanidade morresse lutando, mesmo que o combate terminasse em uma derrota.

P: O que resta de Che na atualidade?

R: Somos uma sociedade mais pacifista do que nos anos 1960-1970. Não aceitamos mais a luta armada como meio para impor nossas ideias políticas, diferentemente de décadas anteriores.

O que persiste é o mito do mártir, a ideia de que, se matou, se exterminou seus oponentes, foi para evitar coisas mais graves. Caso contrário, por que tantos comunistas caíram no esquecimento, e ele, não?

Em sua relação com a morte, talvez haja algo em comum com a atitude dos jihadistas: o desejo de glória, a ideia de já se considerar morto...

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AFP