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O chefe do Estado-Maior francês, Pierre de Villiers, anunciou sua renúncia ao cargo, nesta quarta-feira (19), na sequência de atritos com o presidente Emmanuel Macron após críticas feitas pelo militar

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O chefe do Estado-Maior francês, general Pierre de Villiers, anunciou sua renúncia, nesta quarta-feira (19), na sequência de atritos com o presidente Emmanuel Macron após críticas feitas pelo militar.

"Nas circunstâncias atuais, considero não estar mais em condições de assegurar a perenidade do modelo de Exército, em que acredito, para garantir a proteção da França e dos franceses, hoje e amanhã, e apoiar as ambições do nosso país. Portanto, assumi minha responsabilidade, apresentando, neste dia, minha renúncia ao presidente da República, que a aceitou", escreveu o general De Villiers, em um comunicado enviado à AFP.

A possibilidade da saída do chefe do Estado-Maior agitava há dias os círculos militares, depois que ele criticou os cortes orçamentários em Defesa previstos por Macron para 2017.

O governo contempla um corte de 850 milhões de euros no gasto militar deste ano em um contexto geral de reduções para 2017, com uma diminuição prevista de 4,5 bilhões de euros no orçamento. Esses cortes se inscrevem no compromisso assumido com Bruxelas de limitar o déficit da França a 3% do PIB.

Na semana passada, vazaram à imprensa declarações ásperas do general ante deputados da comissão de Defesa da Asssembleia Nacioanal a respeito dos cortes, os quais, segundo ele, "não são sustentáveis".

Depois de chamar à ordem o general de Villiers no feriado nacional de 14 de julho, o presidente centrista criticou o militar, sem nomeá-lo, por ter exposto publicamente a polêmica de uma forma "indigna".

"Se algo opõe o chefe de Estado-Maior do Exército ao presidente, muda-se o chefe de Estado-Maior do Exército", sentenciou Macron em uma entrevista publicada no domingo no "Journal du Dimanche".

"O general De Villiers expressou um desacordo. Tem todo o direito de fazê-lo", opinou o primeiro-ministro. "Mas, como um militar com honrarias não pode criticar as decisões tomadas por seu chefe. Por isso assumiu as consequências deste desacordo", acrescentou.

Nesta quarta, Macron voltou a justificar os cortes na Defesa, assegurando que com o orçamento definido o Exército pode "proteger o país".

Seu sucessor, o general François Lecointre, conselheiro militar do primeiro-ministro Edouard Philippe, foi nomeado no final da manhã. Lecointre, de 55 anos, assumirá suas funções na quinta-feira, segundo indicou o porta-voz do governo, Christophe Castaner.

- França em várias frentes -

De Villiers, um general apreciado, reclamava há tempos da falta de recursos alocados para os militares, no momento em que a França está empenhada em várias frentes contra o extremismo e contra a ameaça terrorista no Sahel (4.000 homens), no Oriente Médio (1.200) e no próprio território nacional (7.000), em razão dos recentes ataques terroristas.

"Sempre velei, desde a minha nomeação, por manter um modelo de Exército que garanta a coerência entre as ameaças que pesam sobre França e Europa, as missões do nosso Exército que não param de aumentar e os meios orçamentários necessários para cumprir com eles", declarou De Villiers, que ocupou o cargo por três anos e meio.

Para o Exército, os cortes orçamentais anunciados na semana passada são ainda mais difíceis de aceitar, uma vez que o presidente Macron, eleito em 7 de maio, fez diversas declarações em favor dos militares desde que chegou ao poder.

No dia em que assumiu o cargo, percorreu a famosa avenida Champs-Élysées em um veículo militar e visitou feridos de guerra. Pouco depois, viajou para a base militar francesa em Gao, no Mali. Recentemente, visitou um submarino nuclear.

Além desses gestos simbólicos, o presidente francês se comprometeu a dedicar 2% do PIB para gastos em defesa para o ano 2025, de acordo com suas promessas de campanha.

As reações à renúncia do general De Villiers foram imediatas. Para a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, o Exército perdeu um "homem de grande valor", cuja renúncia "ilustra os abusos graves" do presidente.

Para o líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, Macron cometeu "um grande erro", que cria uma situação de mal estar entre o Exército e a Nação.

AFP