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Foto sem data cedida pelo grupo da revista Nature em 4 de agosto de 2016 mostra uma pintura de Edgar Degas, "Portrait of a Woman"

(afp_tickers)

Pesquisadores revelaram na quinta-feira ter usado um super-raio-X para ver por baixo da superfície de um retrato do impressionista Edgar Degas e contemplar uma modelo que ele tinha pintado há quase 140 anos.

A mulher, cuja imagem Degas virou de cabeça para baixo antes de usá-la como base para uma nova pintura, foi provavelmente Emma Dobigny - uma das modelos favoritas dos artistas franceses do século XIX, afirmaram os pesquisadores.

"Esta foi uma descoberta muito emocionante", disse David Thurrowgood, conservador na Galeria Nacional de Victoria, na Austrália, onde a pintura está exposta.

"Não é todo dia que uma nova pintura de Degas é encontrada, neste caso, escondida bem na nossa frente", acrescentou.

Sabe-se da existência da "underpainting" (pintura subjacente), uma camada inicial de pintura que serve de base para outras, desde aproximadamente 1920.

Uma figura vaga e fantasmagórica foi emergindo lentamente, formando uma mancha cada vez mais escura sobre a face da modelo que a substituiu.

Tentativas anteriores de descobrir algo sobre o original abandonado revelaram pouco mais do que um contorno fraco.

Por muito tempo, considerou-se que a imagem escondida era impossível de ser decifrada mantendo intacta a pintura da superfície, escreveu a equipe de pesquisadores na revista Scientific Reports.

A descoberta foi possível graças ao Síncroton Australiano em Victoria, um acelerador de partículas que gera radiação para obter imagens de alta resolução em pesquisas, terapias ou análises forenses.

A luz produzida "é um milhão de vezes mais brilhante que o sol, muitas ordens de magnitude maior em potência e intensidade em comparação com os raios-X padrão, como os do hospital", disse à AFP o especialista em síncroton e coautor do estudo Daryl Howard.

"Por causa da luz brilhante, somos capazes de revelar detalhes estruturais sem precedentes de qualquer material", acrescentou.

Reconstituição detalhada

Usando uma técnica chamada fluorescência de raios-X, os pesquisadores se tornaram as primeiras pessoas desde Degas a contemplar o rosto da sua modelo.

Comparando a imagem com outras pinturas, eles concluíram que se tratava, provavelmente, de "um retrato previamente desconhecido da modelo Emma Dobigny".

Dobigny, cujo nome verdadeiro era Marie Emma Thuilleux, posou para Degas em 1869 e 1870, quando ela tinha cerca de 16 anos.

"Observamos uma forte semelhança entre o 'underpainting' revelado e vários retratos que Degas fez de Emma Dobigny", escreveram os autores do estudo.

De acordo com o ex-diretor do Museu do Louvre Henri Loyrette, um renomado especialista em Degas, "é completamente possível" que o rosto pertença a Dobigny.

O nome da mulher vestida de preto que a suplantou na tela, no entanto, permanece desconhecido.

Seu retrato - que data de alguns anos depois do original, por volta de 1876-1880 - é intitulado simplesmente "Portrait de Femme" (Retrato de uma mulher).

Degas não tinha aplicado uma nova camada de base, e usou finas camadas de tinta à base de óleo que estão agora perdendo o seu "poder de cobertura", permitindo que Dobigny comece a aparecer, disseram os autores.

Os pesquisadores utilizaram o síncroton para criar onze "mapas" da tela original - cada um de um elemento metálico diferente dos pigmentos que Degas usou, incluindo arsênico, cobre, zinco, cobalto e mercúrio.

O processo levou cerca de 33 horas.

Juntos, os mapas elementares fornecem uma reconstituição detalhada, revelando inclusive os movimentos das pinceladas do artista.

As cores, no entanto, tiveram que ser inferidas.

"O cobalto está provavelmente presente na forma de um pigmento azul, que ajuda a definir tons de pele", escreveu a equipe, enquanto "o mercúrio é predominante na área facial e muito provavelmente corresponde a um pigmento vermelho, que contribuiria para um tom de pele rosado".

Uma seção borrada no cabelo de Dobigny sugere que Degas tinha feito várias tentativas de remodelar uma orelha excessivamente pontuda, como a de um duende - um truque pelo qual ele era aparentemente conhecido na época.

"Pinturas ocultas, composições originais que foram escondidas por trabalhos subsequentes, são conhecimentos importantes sobre obras e artistas", escreveu a equipe.

Neste caso, a comparação de dois retratos pintados com vários anos de intervalo mostrou a "transformação de paleta e técnica" de Degas.

Os pesquisadores disseram que não conhecem nenhum outro método que teria funcionado tão bem como o scanner com síncrotron, que também foi utilizado em 2008 para revelar o retrato de uma camponesa embaixo da pintura "Patch of Grass" de Vincent van Gogh.

A tecnologia "irá impactar significativamente as maneiras como o patrimônio cultural é estudado para fins de autenticação, preservação e ensino", concluiu a equipe.

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AFP