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Imagens de 9 de junho de 1967 e 26 de maio de 2017 mostram judeus rezando no Muro das Lamentações, localizado na cidade antiga de Jerusalém

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Israelenses e palestinos lembram no próximo dia 5 de junho o 50º aniversário da Guerra dos Seis Dias, um conflito que mudou o rosto do Oriente Médio e deixou um rastro de cinco décadas de violência, de planos de paz abortados e de decepção.

A esperança de que israelenses e palestinos cheguem a um acordo sobre a coexistência de dois Estados parece a cada dia mais distante, e o desejo do presidente americano, Donald Trump, de mediar um acordo diplomático provoca ceticismo.

Ambos os lados divergem sobre o pano de fundo de uma guerra que fortaleceu Israel e deu início a 50 anos de ocupação e de colonização dos territórios palestinos.

A esmagadora vitória de Israel sobre os países árabes vizinhos entre 5 e 10 de junho de 1967 levou à delimitação do pequeno Estado criado depois da Segunda Guerra Mundial.

Para os israelenses, a proeza militar completa a aspiração judaica de um retorno a Jerusalém, algo pelo qual esperavam há quase 2.000 anos. Já os palestinos denunciam o roubo de suas terras e o fato de os israelenses insistirem em dominar todo o território entre o Jordão e o Mar Mediterrâneo.

- 'Ficamos'

Muitos israelenses, incluindo ministros do governo de Benjamin Netanyahu, rejeitam abertamente a criação de um Estado palestino, solução mais defendida pela maioria da comunidade internacional.

Alguns afirmam que os palestinos que quiserem viver em um Estado judaico poderão fazê-lo, mas que os demais devem ir embora.

"Vale a pena tentar, concedendo-lhes, talvez, uma compensação", opina o advogado israelense Michael Lafair, de 43 anos, que visitou Jerusalém recentemente com seus filhos para os atos comemorativos da vitória de 1967.

A alguns passos da Cidade Antiga de Jerusalém, tomada pelo Exército israelense dos jordanianos em 1967, o palestino Mohamed Castiro recusa a ideia de forma categórica.

"Ficamos. É nossa terra, e não temos nenhuma intenção de ir embora", garante esse homem de 51 anos, no pequeno café propriedade de sua família desde 1965.

O conflito está o tempo todo presente: nas disputas sobre os lugares santos de Jerusalém, no muro de separação israelense que bordeja a Cisjordânia ocupada e no bloqueio da Faixa de Gaza.

Foram três guerras em Gaza desde 2008. Duas revoltas populares palestinas (as chamadas Intifadas) aprofundaram e ampliaram esse fosso. Houve momentos de esperança, como após os acordos de Oslo e o histórico aperto de mãos com Yasser Arafat, mas que caíram por terra quando o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin foi assassinado por um extremista judeu.

- Sem retorno

Em paralelo, Israel se impôs como a principal potência militar da região e se autoproclamado a "nação startup" por seu dinamismo no setor de alta tecnologia.

Diante da colonização, que cerceia ainda mais o território palestino, e da divisão entre a Autoridade Palestina e o movimento palestino islamita Hamas, cabe perguntar sobre a viabilidade da solução de dois Estados.

"Não sabemos se está morta, mas a cada ano que passa é mais difícil levá-la adiante", declara Dan Shapiro, ex-embaixador dos Estados Unidos em Israel.

"Existe, talvez, um ponto de não retorno, e a particularidade desses pontos é que, às vezes, você se dá conta muito depois de tê-los ultrapassado", acrescentou.

A guerra de 1967 foi uma vitória de Israel sobre Egito, Jordânia e Síria. Israel se apoderou de Jerusalém Oriental e das Colinas de Golã (anexadas), da Cisjordânia (ainda ocupada pelo Exército), da Faixa de Gaza (de onde se retirou em 2005, mas ainda sujeita a bloqueio) e da península do Sinai (devolvida ao Egito).

- 'Um capítulo doloroso'

Nesses 50 anos, Israel assinou acordos de paz com Egito e Jordânia, mas as relações com os palestinos de Jerusalém Oriental, da Cisjordânia e de Gaza foram afetadas.

O governo de Netanyahu é considerado o mais à direita da história de Israel, e a influência dos pacifistas, a menor possível.

Entre os palestinos, o presidente Mahmud Abbas, de 82 anos, é impopular. O Hamas tenta suavizar sua imagem, mas se mantém firme em sua recusa a reconhecer Israel. As últimas negociações entre israelenses e palestinos fracassaram em 2014.

Uma recente pesquisa israelense indica que 78% dessa população não vislumbra qualquer possibilidade de acordo de paz em um futuro previsível. Outra enquete, do lado palestino, mostra que, para 60% dos entrevistados, a solução dos dois Estados não é viável.

A deputada israelense Aliza Lavie, de centro, apoia a ideia dos dois Estados, mas considera que o país deve ser realista.

"Deveríamos voltar à mesa de negociações e encontrar uma solução", defendeu, "mas devemos fazer isso sem perder de vista a necessidade de nos protegermos".

Hanan Ashraui, membro da Organização da Libertação da Palestina (OLP), era estudante em Beirute em 1967 e levou seis anos para retornar à sua Cisjordânia natal. Ele se refere a 1967 como o "capítulo mais doloroso" de sua vida.

"Não é algo abstrato, ou que remonte a 3.000 anos atrás", comentou.

"Não apenas criam um Estado na tua própria terra, como agora você vê como se estende e, além disso, mantém você em cativeiro e priva você de seus direitos mais elementares".

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