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Cisjordânia ocupada tem hospitais lotados enquanto Israel deixa confinamento

Um paciente com covid-19 em um hospital perto de Hebron (Cisjordânia), 16 de março de 2021 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 17. março 2021 - 12:05
(AFP)

Enquanto Israel continua sua campanha de vacinação em massa - a mais rápida do mundo - para reabrir bares, pavilhões esportivos e museus, os hospitais a poucos quilômetros de distância na Cisjordânia ocupada estão desmoronando com o influxo de novos pacientes com covid-19 por falta de vacinas.

O contraste é impressionante.

De um lado, mais de 4,3 milhões de pessoas (46% da população israelense) receberam as duas doses da vacina da Pfizer/BioNTech com o bônus adicional de um desconfinamento estendido em 7 de março com a reabertura de restaurantes.

Do outro, novos confinamentos.

O Estado hebreu vacinou 90.000 palestinos que trabalham em Israel, ou em assentamentos, mas, contando as cerca de 60.000 doses recebidas nesta quarta-feira (17) pelo dispositivo Covax e as fornecidas antes por outros doadores, a Cisjordânia tem menos de 100.000 doses para seus cerca de 2,8 milhões de habitantes.

E, pela primeira vez desde o início da pandemia, o número de casos diários na Cisjordânia ocupada excede o registrado para todo Israel, levando os hospitais ao limite.

Na sala de emergência do complexo médico de Ramallah, uma menina de 8 anos infectada com o vírus luta com seu cilindro de oxigênio, uma senhora de 60 anos na UTI observa quem passa, e os pacientes gemendo, constatou um jornalista da AFP que não teve autorização para filmar.

- Capacidade excedida -

O serviço está sobrecarregado, e o ar carregado de um odor fétido.

"Às vezes, esperamos que um paciente morra para podermos admitir aqueles que aguardam na sala de emergência", observa um funcionário do hospital, que pediu anonimato.

Localizado a cerca de 20 quilômetros de Jerusalém, este hospital da principal cidade da Cisjordânia não é um caso único.

A Autoridade Palestina anunciou esta semana que o sistema de saúde local excedeu sua capacidade.

"Alcançamos a linha vermelha", disse a ministra palestina da Saúde, Mai al-Kaila. "A situação epidemiológica é muito perigosa por causa da grande disseminação do vírus", completou.

O diretor do hospital Dora em Hebron (sul), doutor Mohammed Rabei, também afirma que o estabelecimento está sobrecarregado, apesar de uma capacidade aumentada de 60 para 80 leitos.

Mas as hospitalizações continuam aumentando, e "temos de encontrar outras soluções" para tratar os doentes graves com o coronavírus, explicou à AFP.

"Sempre houve falta de pessoal aqui, mas atualmente as equipes trabalham sob pressão, não têm folgas, estão esgotadas", relata.

Em Silwad, ao norte de Ramallah, americanos de origem palestina doaram mais de 50 máquinas de oxigênio - cerca de US$ 1.000 cada - para que os pacientes possam ser tratados em casa.

"Cerca de dez moradores morreram no centro médico de Ramallah e no hospital Chávez (também em Ramallah), então novos pacientes se recusam a ir para os hospitais", constata o prefeito da cidade, Osama Hammad.

"Não tivemos escolha a não ser pedir máquinas de oxigênio para manter os doentes, tratá-los na clínica local, em vez de deixá-los morrer nos grandes hospitais", diz Hammad, cuja cidade foi isolada por dois dias para impedir a propagação do vírus.

No início da campanha de vacinação em Israel, em dezembro, ONGs como a Anistia Internacional e autoridades palestinas pediram a Israel que estendesse sua campanha de vacinação para a Cisjordânia, território ocupado desde 1967 pelo Estado judeu.

Israel se recusou, no entanto, considerando não ter qualquer obrigação de fornecer vacinas aos palestinos. Forneceu doses apenas para o pessoal médico na Cisjordânia e para funcionários palestinos em Israel, ou nos assentamentos.

Israel se beneficia de um abastecimento rápido, graças a um acordo com a gigante americana Pfizer.

Já a Autoridade Palestina ainda espera a entrega de 100.000 doses da China e outras milhões do dispositivo Covax. Enquanto isso, muitos lamentam em Ramallah.

"Se pudéssemos começar a vacinar ao mesmo tempo que Israel, não teríamos problemas", afirma, em tom amargo, um funcionário do Ministério da Saúde que pediu para não ser identificado.

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