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As chanceleres de Colômbia, Maria Ángela Holguín (D), e de Venezuela, Delcy Rodríguez, em Cartagena, no dia 26 de agosto de 2015

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Colômbia e Venezuela acertaram nesta quarta-feira, em Cartagena, reforçar sua cooperação visando superar a crise provocada pela deportação de cerca de mil cidadãos colombianos, enquanto na fronteiriça cidade de Cúcuta, albergues estavam superlotados e os expulsos protegiam cuidadosamente seus pertences, resgatados de suas casas do outro lado da fronteira.

A crítica situação humanitária, o contrabando e a atividade de grupos armados ilegais na fronteira comum foram os temas do encontro entre a chanceler da Colômbia, Maria Ángela Holguín, e sua colega de Venezuela, Delcy Rodríguez.

"Foi uma reunião positiva, ampla, franca", disse Holguín à imprensa, confirmando que discutiu as origens da crise, relacionada à criminalidade que abala a região da fronteira.

"Temos problemas com quadrilhas dedicadas ao narcotráfico e ao contrabando, o problema do preço do combustível e da diferença cambial", destacou a ministra colombiana.

Holguín anunciou que nos próximos dias ocorrerão reuniões entre os ministros da Defesa para estabelecer um plano de luta contra as quadrilhas que operam na região e disse que a Colômbia fortalecerá sua presença "nas 47 novas passagens informais" na fronteira, como parte de um plano que começará a ser aplicado rapidamente.

Segundo a ministra, a Venezuela fará uma proposta para combater o contrabando de combustível - fortemente subsidiado por Caracas - e se buscarão estratégias para evitar o contrabando de outros produtos.

Rodríguez avaliou que a reunião foi um primeiro passo "na estrada que nos permitirá construir uma nova fronteira".

"Seguiremos trabalhando para construir uma fronteira de paz (...) onde não dominem as máfias produto da violência".

Ao menos mil colombianos foram deportados pelo governo do presidente Nicolás Maduro, que decretou na sexta-feira estado de exceção por 60 dias em várias áreas do estado de Táchira, vizinhas à Colômbia.

A medida, que inclui o fechamento de passagens de fronteira, foi tomada após um ataque, há uma semana, no qual três militares e um civil venezuelanos ficaram feridos na cidade de San Antonio de Táchira, diante da colombiana Cúcuta, durante uma operação de combate ao contrabando.

O fato, que Maduro atribuiu a "paramilitares colombianos", motivou a deportação em massa dos colombianos, que supostamente viviam irregularmente na Venezuela.

Santos na fronteira

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, que negou em um fórum em Bogotá que os problemas com a Venezuela tenham sido provocados pela Colômbia, como diz Maduro ao afirmar que a escassez que assola seu país é provocada pelo contrabando, visitou nesta tarde Cúcuta, onde os deportados recebiam apoio e ajuda humanitária em vários albergues.

Em um dos abrigos, Luisa Olaya, de 26 anos, contou à AFP, depois de relatar sua história a Santos, que foi tirada junto com a família do bairro Mi Pequeña Bariñas por militares venezuelanos às 5 da manhã.

"Derrubaram as casas, foi um susto ver essa gente armada", disse Olaya, declarando ao presidente que não deseja voltar à cidade onde nasceu, Medellin (noroeste), depois de mais de um ano morando na Venezuela com seu marido e seus sogros, todos colombianos.

Olaya, que carregava seu bebê nos braços, era uma das dezenas de mães deste albergue que tinham estampada a preocupação no rosto.

A Defensoria do Povo (estatal) reportou até agora 451 queixas formais de cidadãos colombianos desde o início da crise.

Os afetados denunciam, sobretudo, os maus-tratos da militarizada Guarda Nacional Bolivariana da Venezuela, que os expulsou "com a roupa do corpo", principalmente de comunidades nos arredores de San Antonio de Táchira, depois de marcar suas casas humildes com a letra "D" de deportados.

Ao lado da cachorrinha prenhe, a colombiana Olinda Prado era uma das que cuidava dos poucos pertences que pôde levar consigo ao cruzar o rio Táchira - fronteira natural entre os dois países - depois de ser expulsa da Venezuela, onde vivia há dez anos.

"Realmente não temos aonde levar a mudança (...) Ontem à noite choveu e todos os colchões ficaram molhados", contou Prado à AFP a respeito de seus poucos bens, enquanto aguardava que caminhões do exército ou a polícia colombiana a ajudassem a levá-los.

Apelo da Unasul

Em meio à crise, o secretário-geral da União de Nações Sul-americanas (Unasul), Ernesto Samper, pediu nesta quarta-feira à Venezuela que suspenda de forma "imediata" a onda de deportações de colombianos e ofereceu a mediação deste organismo ante o pedido dos dois governos e assim que acabem as expulsões.

Além disso, o secretário e ex-presidente colombiano (1994-1998) propôs "a criação de um mecanismo institucional para a defesa dos direitos dos deportados", segundo comunicado divulgado em Quito, onde funciona a sede da Unasul.

Antes da difusão deste comunicado, o também ex-presidente César Gaviria (1990-1994) tinha pedido, em Bogotá, a saída da Colômbia da Unasul porque, segundo ele, a entidade está "entregue" ao governo da Venezuela.

Considerado pela ONU o segundo país com maior índice de homicídios do mundo, a Venezuela enfrenta uma crise econômica com alta inflação, desvalorização do bolívar e escassez de dois terços dos produtos básicos, enquanto os preços do petróleo, do qual o país é altamente dependente, desabam.

Colômbia e Venezuela compartilham uma fronteira de 2.219 quilômetros, na qual ambos denunciam a presença de grupos ilegais que lucram com o contrabando de combustível e outros produtos fortemente subsidiados pelo governo da Venezuela.

AFP