Conteúdo externo

O seguinte conteúdo vem de parceiros externos. Nós não podemos garantir que esse conteúdo seja exibido sem barreiras.

Cidadãos colombianos cruzam a fronteira do rio Táchira deixando a Venezuela, chegando em Cúcuta, no dia 27 de agosto de 2015

(afp_tickers)

Em albergues e refúgios improvisados, centenas de colombianos expulsos da Venezuela pelo governo de Nicolás Maduro tentavam retomar suas vidas nesta quinta-feira na cidade de Cúcuta, aonde continuavam chegando devido à crise fronteiriça entre os dois países, que já soma 7.000 afetados.

Autoridades colombianas, membros da Cruz Vermelha e de agências da ONU assistiam os deportados.

Segundo o último balanço oficial, os deportados somavam 1.097 pessoas e estimava-se que entre 5.000 e 6.000 tenham sido repatriados voluntariamente após o estado de exceção decretado na sexta-feira por Maduro em um setor da fronteira.

A medida, motivada pelo ataque de homens não identificados a militares venezuelanos em meio a uma operação de combate ao contrabando que Maduro atribuiu a "paramilitares", era rejeitada fortemente na Colômbia, onde se vivia um drama humanitário em abrigos e nas margens do rio Táchira, fronteira natural entre os dois países e por onde nesta quinta-feira continuava o êxodo de colombianos levando seus pertences nas costas.

"Feio que a chanceler da Venezuela (Delcy Rodríguez) diga que isto não esteja acontecendo, que é mentira", disse à AFP Ernesto Chivatá, um padeiro de 41 anos, em alusão à reunião realizada na véspera entre as ministras das Relações Exteriores de ambos os países.

Chivatá contou que vivia há uma década na Venezuela, mas se viu forçado a fugir por ameaças da militarizada Guarda Nacional Bolivariana (GNB).

"Para que vão nos chamar de paramilitares se nós não temos armas, temos as mãos", completou.

Familiares de Jonatan Correga, um colombiano levado pela GNB no sábado e do qual sua família não sabia nada, pediram sua liberdade. "É inocente... não é paramilitar", afirmava o grupo com a foto do jovem, de 20 anos e que visitava sua namorada venezuelana.

Na véspera, durante uma visita a Cúcuta (noroeste), o presidente colombiano Juan Manuel Santos também afirmou que os repatriados não são paramilitares, mas "famílias pobres".

Pelo mesmo caminho pelo qual "sacoleiros" contrabandeavam até pouco tempo produtos básicos fortemente subsidiados na Venezuela, avançavam agora sob um sol escaldante e a 40ºC homens, jovens e crianças carregando pertences.

Vários passavam junto à cruz que marca o lugar onde a GNB atirou em três "sacoleiros" há um mês. Mas todos afirmavam que nenhum contrabando é possível sem prévio pagamento à mesma GNB que os persegue.

Refugiados revivem drama

Com a crise fronteiriça, muitos reviviam o drama de ter saído anos atrás escapando da violência do conflito armado na Colômbia, que em meio século deixou seis milhões de refugiados.

"Meus olhos pesam de tanto chorar", disse à AFP Andrea Agudelo, de 33 anos, cujo status legal de refugiada e sua carteira venezuelana não a salvaram de ter que cruzar o rio na noite de sábado.

"Éramos um grupo de 37. Os homens saíram primeiro porque se dizia que eram os primeiro que iam levar para acusá-los de paramilitares. E depois saímos todos, mulheres, crianças, cachorros, galinhas, porcos", contou.

Para deixá-la escapar com seus dois filhos, os soldados marcaram sua casa com um "D", sinal de que seria demolida, e lhe cobraram 1.000 bolívares por cada um. Além disso, lhe roubaram celulares, eletrodomésticos "e até a tintura para o cabelo", afirmou.

O drama de Agudelo se repetia em outros abrigos de Cúcuta. Nicolás Campos, um trabalhador rural de 46 anos refugiado de Río Viejo, às margens do rio Magdalena, vivia há quatro anos na Venezuela.

"Decidi ir com minha família para a Venezuela, mas na terra onde trabalhava começou a chegar (a guerrilha colombiana) ELN e vi que a GNB lhe dava mantimentos", relatou.

"Então (no começo de 2014) falei com minha mulher: Vamos para San Antonio antes que nos aconteça o mesmo que na Colômbia".

Mas teve que sair no domingo, "de chinelos, camiseta e bermudas", depois que a GNB entrou a chutes em sua casa, também marcada com a fatídica letra "D", relatou.

Junto às águas barrosas do Táchira, com imponentes montanhas ao fundo e entre móveis e portas que conseguiu tirar de sua casa, Miguel Tarazona, um mecânico colombiano radicado na Venezuela há 14 anos, não escondia sua indignação.

"É sombrio, muito decadente", afirmou. "O que irá acontecer de agora em diante é muito incerto para nós", emendou.

AFP