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Ativistas dos Direitos Humanos em manifestação em Santiago, no dia 11 de setembro de 2015

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Com a convicção de que o Chile mantém dívidas pendentes no caminho até a verdade e justiça, a presidente Michelle Bachelet recordou nesta sexta-feira o golpe de Estado que 42 anos atrás "tirou" a alma do Chile instaurando a ditadura de Augusto Pinochet.

Apesar das expectativas dos grupos de direitos humanos e de setores da coalizão governante, o discurso de Bachelet terminou sem anúncios sobre uma prisão especial para repressores que desperta a rejeição dos familiares de desaparecidos.

"Ainda faltam entes queridos cujo paradeiros devemos saber, ainda existe verdade para conhecer e justiça para aplicar", disse a presidente ao liderar uma homenagem ao socialista Allende em La Moneda, a sede do governo que em 1973 foi bombardeada pelas Forças Armadas.

Bachelet, que recordou a tragédia "que tirou a alma do Chile", pediu a "derrubada dos muros de silêncio que nos impedem de avançar, ainda há privilégios que o Chile de hoje em dia não tolera, a consciência do Chile exige que eles sejam superados".

"Eu me encarregarei de que o cumprimento da justiça seja igual para todos, é um compromisso inevitável que assumo pessoalmente", acrescentou a presidente, que viveu na própria pele a repressão militar, no que pode ser um aceno para as vozes que pedem o fechamento da prisão especial.

"Precisam entender que têm a obrigação de fechá-la", declarou, nos arredores de La Moneda, Lorena Pizarro, presidente da Associação de Familiares Detidos Desparecidos.

A prisão Puenta Peuco, localizada a 50 km de Santiago, abriga uma centena de ex-membros das Forças Armadas, condenados por sequestro, tortura e assassinato de algumas das mais de 3.200 vítimas mortais que deixou a ditadura de Pinochet (1973-1990).

Contas pendentes

A 42 anos do golpe que instaurou uma das ditaduras mais cruéis da América Latina, com mais de 38.000 torturados e milhares de exilados, o país avança entre constantes novas condenações a repressores e vozes que acusam as Forças Armadas de manterem vivos 'pactos de silêncio' que impedem o avanço de diversas causas judiciais em trâmite.

A onda de críticas tomou nova força neste anos após a volta inesperada do caso de dois jovens queimados em 1986, crime emblemático que provocou a morte do fotógrafo Rodrigo Rojas e que se resolveu com a condenação a mais de dez repressores graças à confissão de um dos ex-oficiais que denunciou as manobras de encobrimento das hierarquias militares.

A morte no início de agosto de Manuel Contreras, ex-chefe da polícia política de Pinochet, enquanto cumpria parte de mais de meio século das condenações, e uma sentença que condenou em agosto 11 ex-militares chilenos e três ex-militares uruguaios pelo sequestro e crime do químico da polícia secreta de Pinochet, Eugenio Berríos, somaram fogo à discussão sobre o passado recente.

Sob os muros de La Moneda - que sobreviveram à ofensiva militar de 73 - Bachelet assegurou que o país se encaminha para "mais verdade, mais justiça e reparação", um futuro no qual tem um papel fundamental a nova Subsecretaria de Direitos Humanos, em trâmite no Congresso.

Além do caminho a percorrer, Bachelet festejou em seu país que "por mais estrondosas que sejam as críticas, a democracia permanece intacta".

Uma democracia que viveu na quinta-feira um intenso debate na Câmara dos Deputados, que aprovou um projeto de lei que instaura um bônus a torturados e viúvas de vítimas, com um sombrio momento protagonizado por um deputado opositor que declarou que "os verdadeiros patriotas estão em Punta Peuco".

A presidente - que enfrenta níveis de aprovação historicamente baixos, 22%, segundo uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira - aproveitou o discurso para lembrar que seu país dará refúgio a famílias sírias, já que "os direitos humanos não têm fronteiras".

Com a homenagem a Allende - que se suicidou em 11 de setembro de 1973, em meio ao bombardeio contra o La Moneda - começa um dia que terá vários atos em memória das vítimas da sangrenta ditadura de Pinochet e que anteriormente já registrou incidentes - que se repetem todos os anos - na periferia de Santiago.

AFP