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Parentes dos cristãos coptas que foram mortos, em Maghāghah, em 26 de maio de 2017

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Os homens mascarados que atacaram na sexta-feira no Egito um ônibus que transportava cristãos a um monastério ordenaram que os coptas descessem do veículo e renunciassem a sua fé, relatam os sobreviventes do ataque.

"Eles mandaram que renunciassem a sua fé cristã, um por um, mas todos se negaram", conta, emocionado, o padre Rashed.

Em seguida, os homens armados os executaram a sangue frio, com tiros na cabeça.

No total, 29 pessoas, incluindo muitas crianças, foram mortas neste ataque reivindicado pelo grupo Estado Islâmico (EI).

Mais de 24 horas depois, a emoção era palpável neste sábado na catedral de Mar Morcos (São Marcos) da pequena cidade de Bani Mazar, na província central de Minya.

Durante a missa, alguns fiéis não conseguiam segurar as lágrimas. Não tendo forças para se manter em pé, um jovem era apoiado por parentes.

Todas vestidas de preto, cabelos cobertos por um fino véu amarrado atrás do pescoço, muitas mulheres foram para uma cerimônia de condolências organizada pela igreja. Suas lágrimas e seus gritos rasgavam o silêncio no recinto.

Após encontrar feridos no dia anterior, o padre Rashed relata como uma viagem a um monastério localizado a mais de 200 km ao sul de Cairo transformou-se em tragédia.

No comboio de vários veículos, incluindo um ônibus, havia trabalhadores contratados para uma obra, mas também os fiéis que desejavam passar o dia no local, como fazem muitos coptas, que representam cerca de 10% dos cerca de 92 milhões de egípcios.

"Antes de serem mortos, a maioria dos homens saiu de seus carros, outros permaneceram dentro", indica o padre Rashed. "Eles parecem ter sido obrigados a se ajoelhar. A maioria recebeu um tiro atrás do crânio, na boca ou na garganta".

"Eles fizeram os homens descer do ônibus, pegaram suas identidades, dinheiro, alianças e anéis", relata Maher Tawfik, que veio do Cairo apoiar sua família. Sua sobrinha sobreviveu ao ataque, mas não seu marido nem sua filha de um ano e meio.

Em seguida, "ordenaram que pronunciassem a profissão da fé muçulmana", acrescentou Tawfik. Antes de executarem aqueles que se recusaram.

Ele disse que os agressores "levaram joias e dinheiro das mulheres", enquanto "as crianças se esconderam sob os bancos".

'Sem surpresa'

Há vários meses, o Egito registrou uma série de ataques cometidos pelos extremistas do EI contra a comunidade cristã.

No início de abril, dois ataques suicidas contra igrejas coptas fizeram 45 mortos no norte do Cairo.

E enquanto o grupo extremista se empenha em multiplicar os ataques contra os coptas, os cristãos de Minya se preocupam: nesta província conservadora, onde esta minoria está particularmente bem estabelecida, as tensões são elevadas entre muçulmanos e coptas.

Em 2013, após a derrubada pelo exército do presidente islamita Mohamed Mursi, várias igrejas na província foram incendiadas por manifestantes que acusavam os cristãos de apoiar os militares.

"Isto não é novo para nós, ser alvo de terrorismo. Nós pagamos o preço pelo apoio ao Exército e ao Estado", exclama Mina al-Masri, em visita a sua cidade natal para os funerais dos parentes de um amigo, mortos no ataque de sexta.

"Espero um banho de sangue para os cristãos", acrescentou.

"Isto não é surpresa, apenas dor", lamenta Mina Said, um jovem pai de 35 anos que veio assistir à missa com sua esposa e dois filhos.

Hanan Fouad perdeu seus vizinhos, uma família de seis pessoas de três gerações. Vestida com uma longa jellaba preta, deu vazão à sua ira no pátio da catedral.

"Isso vai acontecer novamente. Não passa um mês sem que eles matem cristãos", declarou, com as mãos segurando seu celular e um pacote de lenço. "Por que os cristãos? Porque eles dizem que somos uma minoria, infiéis".

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