A pandemia do novo coronavírus na Venezuela, com um sistema de saúde precário e a maioria da população sem acesso contínuo a água e sabão, é um perigo para toda a região se não for controlada, alertou nesta quinta-feira (26) uma autoridade do Departamento de Estado americano.

"A situação na Venezuela é extremamente nefasta (...) Se o país não puder lidar com a Covid-19, a doença irá para o Brasil, Colômbia e toda a região circundante, como estamos vendo com a crise de refugiados", declarou Carrie Filipetti, vice-secretária de Estado americano para Cuba e Venezuela, em videoconferência.

"Veremos uma expansão da pandemia de Covid-19 na região, se não globalmente, se a Venezuela como país não puder enfrentar a crise", antecipou a diplomata em conferência organizada pelo Conselho das Américas (AS/COA), com sede em Nova York.

- Milhões em risco -

A pandemia chega em uma Venezuela mergulhada em uma crise política e economia devastada por seis anos consecutivos de recessão, inflação galopante e uma violenta depreciação da moeda local.

Soma-se a isso o colapso dos serviços públicos e a escassez de alimentos e medicamentos na ex-potência petroleira que resultaram na fuga do país de cinco milhões de venezuelanos, segundo a ONU.

"A vida de milhões de venezuelanos está em risco por uma pandemia que não pode ser atendida por um sistema sanitário colapsado", disse na mesma videoconferência David Smolansky, coordenador do grupo de trabalho sobre migrantes e refugiados da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Segundo Filipetti, o país possui apenas 84 leitos em unidades de terapia intensiva para uma população de cerca de 30 milhões de pessoas.

"Isso significa que, no minuto em que a Venezuela chegar a mais de 1.500 casos, não terá capacidade para lidar com essa crise", ressaltou.

Além disso, 44% dos hospitais não têm eletricidade de maneira contínua, 66% não têm água corrente 24 horas, 64% não possuem equipamento de raio-X e 90% não possuem protocolos para tratamento respiratório contra vírus, apontou.

"Um em cada três venezuelanos não tem comida diariamente (...) Ou você sai e tenta conseguir alguma comida, ou fica em quarentena e morre de fome", advertiu, por sua vez, a deputada da Assembleia Nacional venezuelana Manuela Bolívar. "Não podemos esperar que gente nessa condição fique em casa".

- Falta de informação -

O governo de Nicolás Maduro registra 106 casos de coronavírus em todo o país, mas o líder da oposição Juan Guaidó diz que o número é maior.

Um jornalista foi detido no sábado na Venezuela após publicar mensagens no Twitter sobre a propagação do novo coronavírus, denunciou o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa (SNTP, na sigla em espanhol). Ainda se desconhece seu paradeiro.

"Não há informações reais sobre o quão sério isto é para a Venezuela", disse a diplomata, referindo-se ao coronavírus que já matou mais de 22.000 pessoas em todo o mundo e se expande ainda pela América Latina, embora ainda não no ritmo da Europa e dos Estados Unidos.

A Venezuela decretou quarentena nacional e a suspensão das atividades profissionais e escolares, exceto a distribuição de alimentos, saúde, serviços básicos, comunicações e segurança.

O presidente Nicolás Maduro também ordenou o uso obrigatório de máscaras faciais em mercados, farmácias e hospitais e suspendeu todos os voos, exceto de cargas.

Em meio à crise, Maduro - indiciado nesta quinta por "narcoterrismo" em uma corte de Nova York - receitou também um suposto antídoto para o vírus feito com mel, capim-limão, gengibre e limão, entre outros ingredientes.

Vários cientistas garantiram à AFP que este medicamento caseiro não cura o coronavírus, embora o presidente insista que sim.

Antevendo uma grave crise, a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, pediu esta semana que as sanções econômicas impostas à Venezuela sejam flexibilizadas ou suspensas "por razões humanitárias".

Também pediu para "acordar autorizações rápidas e flexíveis para obter bens e equipamentos médicos essenciais".

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