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Uma família janta no escuro, em Barinas, Venezuela, no dia 25 de abril de 2016

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Alejandra Alayón tenta obter uma licença em uma instituição que só funciona duas vezes por semana; Omar Izaguirre se preocupa com a qualidade da educação com um dia a menos de aula. A crise elétrica castiga os venezuelanos que já sofrem com uma economia prostrada.

Com uma contração do PIB de 5,7%, uma inflação de 180,9% em 2015 e a escassez de dois terços dos produtos básicos, os apagões diários e as falhas de abastecimento de água agravam a penúria dos venezuelanos, que desde quarta-feira assinam para a realização de um referendo pela revogação do mandato do presidente Nicolás Maduro.

O mandatário, cuja desaprovação chega a 68%, ordenou um racionamento elétrico desde a última segunda-feira na maior parte do país e reduziu para dois dias semanais a jornada do setor público com o objetivo de poupar energia.

"Estou solicitando uma licença de atividades econômicas. Fui nesta manhã (quinta-feira) à prefeitura de Sucre, mas os funcionários não sabiam se deviam trabalhar. Sem isso não se pode faturar e nenhum rendimento é recebido", comentou à AFP Alayón, uma contadora de 39 anos.

Analistas consideram que as medidas governamentais refletem improvisação e desconhecimento.

Miguel Lara, ex-gerente do órgão estatal que administra a rede elétrica, assegurou à AFP que o atual esquema de cortes residenciais, que exclui o horário de pico da noite, "não é correto em termos de engenharia", pois leva a pontos altos de consumo impossíveis de serem supridos por um sistema que não tem geração e transmissão de energia suficiente.

Residentes do interior se queixam que os apagões não são realizados de acordo com os cronogramas.

Maduro justifica o racionamento com a seca causada pelo fenômeno El Niño, o pior nos últimos 40 anos, segundo o presidente, que esvaziou a represa da hidroelétrica de El Guri, que gera 70% da eletricidade da Venezuela.

O nível da represa estava, na quarta-feira, apenas um metro acima do ponto crítico, que obriga a paralisar as turbinas de geração.

Lara assegura que a demanda atual de 15.500 megawatts (MWe) poderia ser garantida com o parque termoelétrico - que alcança 18.400 MWe - "sem a necessidade de El Guri, mas as usinas só operam a 35% de sua capacidade porque não recebem a manutenção ou porque não há combustível para isso", devido ao deterioramento das refinarias da estatal Pdvsa.

O ex-funcionário aponta que a estatal Corpoelec - que unificou todas as empresas de energia após a nacionalização do setor em 2007 - é um posto burocrático, com poucos especialistas e sem a manutenção adequada nos equipamentos.

Isto, segundo ele, provocou uma superexploração dos recursos hídricos, ao que se soma os casos de corrupção em contratos de construção de usinas termo e hidroelétricas.

A empresa Capital Economics afirma que "durante a crise elétrica de 2010, o país pôde importar energia, mas com a atual falta de divisas (devido à queda dos preços do petróleo), essa não é uma opção".

A Eurasia Group aponta igualmente que, por causa da falta de divisas, o governo não pode, agora, recuperar o parque termoelétrico ou melhorar sua infraestrutura.

- Economia de descaso -

Os funcionários públicos, que já tinham as sextas-feiras livres ao menos até junho, agora só trabalham às segundas e terças-feiras. Além disso, as instituições educativas só terão aulas de segunda a quinta-feira.

"A educação, que já é deficiente, será mais agora com essa folga. Haverá mais atraso econômico pelos dias livres, falta de água e insegurança e escassez de alimentos. Minha mãe vive em Barquisimeto e ontem lhe privaram de luz por quatro horas duas vezes, na madrugada e pela noite", comentou Izaguirre, um designer gráfico de 42 anos.

As medidas também são questionadas pelo presidente da Fedecámaras, Francisco Martínez, que acredita que "novamente o país dá uma demonstração de que está atravancado".

"Vão afetar enormemente a atividade da produção de bens e serviços", adverte.

A Capital Economics estima que a crise elétrica "poderia reduzir em 1,5 ponto o PIB deste ano, impulsionando a contração econômica até 9,5 ou 10%".

Martínez lamenta que os cortes cheguem justamente quando o país "necessita de mais tempo para trabalhar, 24 horas ao dia se for possível, para recuperar todo o terreno perdido na produção".

"Isso terá um impacto sobre a escassez", disse.

Segundo a Conindustria, principal sindicato industrial do país, durante o último trimestre de 2015, 70% de seus afiliados manifestaram que "o racionamento elétrico era um dos fatores que impedem o aumento da produção".

AFP