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Temer discursa no Palácio do Planalto, em Brasília

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O escândalo de corrupção que atinge o presidente Michel Temer ameaça dificultar a saída do país da recessão, caso as reformas pró-mercado fiquem paralisadas no Congresso - apontam analistas.

"A economia se ressentirá muito com a atual situação de crise. Temo um terceiro ano consecutivo de recessão", disse à AFP o professor de Economia Gesner Oliveira, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) e sócio da consultoria GO Associados.

Ecoando as previsões pessimistas, a classificadora de riscos financeiros Standard and Poor's afirmou nesta terça-feira (23) que poderá rebaixar a nota do Brasil, devido "à crescente incerteza política".

Temer, de 76 anos, declarou na quinta-feira passada (18) que seu governo estava vivendo "seu melhor e seu pior momento" em um ano, quando substituiu Dilma Rousseff, afastada pelo processo de impeachment.

"A queda da inflação, os números de retorno ao crescimento e os dados de geração de emprego criaram esperanças de dias melhores", disse o presidente.

"Não podemos jogar no lixo da história tanto trabalho em prol do país", acrescentou, atribuindo esses avanços às medidas de ajuste já aprovadas - como a PEC do teto dos gastos públicos -, ou em discussão no Congresso, como as reformas trabalhista e da Previdência.

Se Temer sonhava com entregar um país saneado e em ordem a quem for eleito em outubro de 2018, seu sonho foi arruinado pela gravação de uma conversa com Joesley Batista, um dos donos da JBS.

A Bolsa despencou 8,8%, o real sofreu uma desvalorização de quase 8% em relação ao dólar e, desde então, a prudência predomina nas operações.

As coalizões no poder e nos mercados - as duas principais bases de Temer em meio à forte impopularidade - se movem com duas preocupações: sobreviver politicamente e manter as reformas de pé.

- Prosseguir igual, mas sem Temer -

Sem mencionar Temer, a poderosa Confederação Nacional da Industria (CNI) publicou nesta terça-feira um comunicado de página inteira nos principais jornais do país, alertando para a necessidade das reformas, apesar da situação de "incertezas e instabilidade".

"A indústria brasileira entende que não pode haver retrocessos nos avanços duramente conquistados nos últimos anos. Por isso, o Congresso Nacional tem que dar continuidade às reformas estruturais, que são fundamentais para voltar a colocar o país no rumo certo", afirma a CNI.

Para Geisner Oliveira, a continuidade das reformas está em risco.

"Neste momento, diria que (as reformas) não têm chances" de serem aprovadas, avaliou, em entrevista por telefone na noite domingo.

Se a crise for superada e as reformas avançarem, este ano, o PIB poderá crescer 0,60%, cerca de 150.000 empregos poderão ser criados e a taxa básica de juros - atualmente em 11,25% - poderá cair para 8,5%, segundo as projeções da Go Associados.

Já a paralisia das reformas poderia fazer o PIB despencar em 1% e levar à demissão de 380.000 trabalhadores, completa.

- A carta Meirelles? -

Segundo o jornal Valor Econômico, se Temer renunciar ou sofrer impeachment, "o 'candidato' preferido dos profissionais do mercado financeiro" é o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que esteve à frente do Banco Central durante os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Em caso de vacância de poder na segunda metade de um mandato, a Constituição prevê que o Congresso escolha um substituto para completar o período.

Ontem (22), Temer conversou com investidores internacionais para tentar aplacar seus temores. Nesta terça (23), em uma conferência em São Paulo, o presidente declarou que a política econômica será mantida "acima de qualquer outra coisa".

Meirelles terá de explicar provavelmente, antes de assumir o eventual papel de homem necessário, qual foi sua atuação na Presidência (de 2012 a 2016) do conselho de administração do J&F, o grupo que controla a JBS, com vários litígios pendentes com a Justiça.

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