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Famílias cristãs que fugiram de jihadistas recebem alimentos no jardim de uma igreja, nos arredores de Arbil, Curdistão

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Refugiados cristãos, amontoados em uma sala de uma igreja do Curdistão iraquiano, perderam a esperança de continuar vivendo em seu país após a ofensiva jihadista, que os levou a abandonar suas casas.

Ameaçados por pertencerem a uma minoria, eles agora sonham em deixar o Iraque por um destino melhor.

"Este país é o nosso país, já havíamos sofrido no passado, mas o ataque do Estado Islâmico (EI) foi o pior", conta Salwa, uma funcionária pública de 40 anos e já avó.

"Eu quero deixar o Iraque", declara sem expressar qualquer dúvida.

Refugiada na Igreja de São José de Ainkawa, uma cidade localizada perto de Erbil, capital do Curdistão iraquiano, Salwa é uma das dezenas de milhares de cristãos que fugiram da ofensiva dos combatentes ultrarradicais do EI nas últimas semanas.

Em Qaraqosh, maior cidade cristã do Iraque tomada pelo EI e de onde a família de Salwa é originária, os jihadistas deram pouca escolha a seus habitantes.

"Eles disseram que ou nos convertíamos ou deveríamos fugir", diz Salwa. "Apenas alguns permaneceram na cidade porque estarem muito doentes ou muito idosos para caminhar. Eles se trancaram em suas casas", lamenta.

Para esta mulher vestida com uma túnica azul tradicional, os ataques aéreos americanos decididos na quinta-feira contra posições jihadistas não devem melhorar sua sorte.

"O EI atacou a comunidade cristã três vezes ao longo dos últimos três meses. Somos vulneráveis ​​aqui. Quero que meus filhos estejam em um lugar seguro", diz ela no fundo de sua cabana pré-fabricada que serve agora como casa no pátio da igreja.

Sua filha de 22 anos, grávida de seu quarto filho, compartilha de seu desespero.

"Fugimos dos bombardeios (jihadistas) com nada além das roupas que vestíamos, andamos por horas no escuro, as crianças gritavam de fome", lembra ela, esboçando um sorriso forçado.

Entre os deslocados, uma freira de 74 anos garante: "Eu vivi várias guerras, mas eu nunca vi nada como o que está acontecendo. Eu entendo que as pessoas queiram sair do Iraque, mesmo que seja o nosso país".

Em uma carta aberta publicada no domingo, o patriarca da Igreja Caldeia no Iraque, Dom Louis Sako, disse que 70 mil cristãos fugiram para Ainkawa.

Segundo ele, 100 mil cristãos no total foram jogados na estrada depois da tomada pelos jihadistas de Qaraqosh e outras áreas em torno de Mossul, no norte do Iraque.

"Algo precisa ser feito para salvar essas pessoas, cuja História está escrita sobre essas terras desde o início", afirmou.

Queremos viver

De acordo com Faraj Benoit Camurat, que preside a ONG Fraternidade no Iraque, muitos cristãos têm pedido a suas paróquias seus certificados de batismo.

"Isso indica que, pelo menos, eles estão pensando em exílio", diz ele.

Os cristãos iraquianos têm, de fato, encontrado mais facilidade do que os seus concidadãos muçulmanos em obter vistos para os Estados Unidos ou outros países ocidentais nos últimos anos.

Neste sentido, a França ofereceu acolher em seu solo cristãos iraquianos, uma das comunidades mais antigas do mundo.

Rayyan Atto, um jovem padre que dirige as operações humanitárias da Igreja Caldeia em Erbil, simpatiza com os sonhos de emigração de seus correligionários.

"Nós não queríamos que eles partissem, mas nós entendemos, eles são oprimidos", explica, apontando para mulheres ocupadas na lavanderia sob o sol quente e uma fila de famílias que esperam pacientemente para conseguir comida e água.

"Não há ,ais vagas nos 22 centros para deslocados que instalamos nas igrejas e escolas" de Ainkawa, cuja população normal de 35.000 habitantes triplicou.

Para Zoheir Yacoub, um soldado aposentado, o problema é mais amplo do que a violência ou a ofensiva jihadista.

"Aconteça o que acontecer agora, não vamos voltar para Qaraqosh, não temos nenhuma proteção, o governo central é fraco, mesmo agora que Nuri al-Maliki (primeiro-ministro demissionário) foi substituído", ressalta.

Protegendo-se do sol sob uma tenda improvisada, ele brandia um cartaz pedindo: "Queremos viver, será que isso é impossível, senhores da guerra?".

"Os outros grupos (étnicos e religiosos) têm suas milícias. Mas este não é o nosso caso, não podemos garantir a nossa própria segurança", diz preocupado.

AFP