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Em um ano, a moeda venezuelana perdeu 94% de seu valor

(afp_tickers)

"Toda vez que o dólar aumenta no mercado negro, você fica mais pobre", diz, resignado, Juan Zabala, diante da valorização frenética da moeda americana no mercado paralelo da Venezuela, influenciada pelo clima de nervosismo com a mudança que a todo-poderosa Assembleia Constituinte irá introduzir.

Executivo de uma empresa de resseguros na Venezuela, Zabala ganha 800.000 bolívares mensais, que nesta quinta-feira valiam 45 dólares no paralelo. Há um ano, quando entrou na empresa, seu salário correspondia a 200 dólares no câmbio negro.

"Quando o dólar sobe, todos os preços aumentam e o salário diminui", explica à AFP este advogado de 38 anos.

A moeda americana fechou o dia cotada a 17.980 bolívares, contra 999 bolívares de um ano atrás, segundo o site DolarToday, a principal referência do mercado paralelo.

Só nesta quinta-feira, a desvalorização foi de quase 12%.

Por trás disto, está a incerteza gerada pela Constituinte do presidente Nicolás Maduro, prevista para ser instalada na sexta-feira.

"O povo está protegendo o pouco que tem", diz à AFP Asdrúbal Oliveros, diretor da consultoria Ecoanalítica.

Oliveros refere-se ao nervosismo de empresas e pessoas físicas que se refugiam no dólar, pressionando a alta, diante de possíveis mudanças constitucionais que, segundo a oposição, instaurariam uma "ditadura comunista".

"A gente trabalha só para poder comer", afirma Zabala, que pode se considerar um privilegiado diante dos que recebem o salário mínimo de 250.531 bolívares (13,9 dólares). Um quilo de arroz custa 17.000 bolívares.

"Dólar terrorista"

A Venezuela vive uma grave crise econômica, que se aprofundou a partir de 2014 com a queda dos preços do petróleo, fonte de 96% das divisas neste país historicamente dependente das importações.

Por causa disto, o governo - que monopoliza os dólares mediante um ferrenho controle de câmbio, vigente desde 2003 - reduziu as remessas ao setor privado, tornando crônica a escassez de alimentos, remédios e todo tipo de bens básicos.

Muitos empresários precisam importar matérias-primas e produtos finalizados com dólares do mercado negro, pressionando a inflação que, segundo o FMI, chegará a 720% este ano.

Para derrotar o "dólar criminoso", Maduro lançou em junho um sistema de atribuição de dólares mediante leilões, onde a moeda é cotada a 2.870 bolívares, mas a oferta é insuficiente. Também existe outra cotação oficial de 10 bolívares por dólar, reservada à importação de alimentos e medicamentos.

O presidente prometeu nesta quinta-feira a importação de alimentos e medicamentos. Também prometeu prisão "aos especuladores" que fixam os preços com base na taxa do "dólar criminoso terrorista de Miami".

"Não permitiremos isto, mão dura, mão de ferro", afirmou.

Mas a realidade é que "as coisas aumentam mais rápido que o salário", comenta Zabala, que destina a décima parte de seu salário a um tratamento para a diabetes, quando consegue.

Maduro, que vincula o "dólar negro" [paralelo] a uma suposta guerra econômica para derrubá-lo, sustenta que a nova Constituição consagrará normas para superar a dependência ao petróleo e incentivar o aparelho produtivo, que funciona com 30% de sua capacidade.

Também otimizará aspectos para o controle de preços, ao qual os especialistas atribuem várias das distorções econômicas.

"Não há barreira"

Maduro enfrenta há quatro meses protestos pedindo a sua saída, que já deixaram 125 mortos, e que aludiu como motivo para a Constituinte que, segundo seus adversários, instalará uma "ditadura comunista".

Henkel García, diretor da consultoria Econométrica, crê que a alta foi provocada por atores que recorrem à moeda americana para "resguardar seu patrimônio" e que por enquanto "não há barreira para o dólar negro".

Mas avalia que a taxa de câmbio atual "não tem lógica" e pode ocorrer, como aconteceu em ocasiões anteriores, que a taxa "se detenha por um tempo e os preços e salários se inflem", gerando-se uma correção.

A Constituinte também gerou um efeito colateral no mercado paralelo, pois com vistas à sua eleição no domingo passado, o governo elevou os gastos em bolívares.

"Quando se injeta bolívares, isto se traduz em que as empresas, os particulares, buscam dólares, que são escassos", observou Oliveros, que estima em 11 bilhões de dólares o déficit de divisas para 2017.

O panorama é ainda mais obscuro com vistas aos próximos vencimentos da dívida (a petroleira estatal Pdvsa deverá pagar 3,433 bilhões de dólares em outubro) e a ameaça de os Estados Unidos sancionarem a Venezuela por causa da Constituinte, sobre a qual há suspeitas de fraude.

Enquanto isso, Zabala espera que seu chefe aprove o reajuste salarial que pediu na quinta-feira - o quarto desde que foi contratado.

AFP