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Denúncias de abuso dos direitos humanos crescem no Chile antes da chegada de missões da ONU e Anistia Internacional

(24 out) Manifestantes enfrentam forças de segurança em Santiago afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 28. outubro 2019 - 00:53
(AFP)

As denúncias de abuso dos direitos humanos por agentes do Estado aumentam no Chile, à medida que persistem as manifestações sociais, que já deixaram 20 mortos, com acusações que se referem principalmente à atuação da polícia.

Durante o estado de emergência, organizações sociais denunciaram a ocorrência de tortura, violência social e agressões, e uma centena de casos de trauma ocular severo causado por balas de borracha.

Desde a última segunda-feira, espera-se no Chile uma missão das Nações Unidas e outra da Anistia Internacional (AI), para investigar a atuação das forças de ordem durante o período de exceção, que termina à meia-noite deste domingo, em meio à pior explosão social em décadas.

Emerson Yarcan, 30, foi atingido por uma bala de borracha no olho na última sexta-feira, nos arredores da praça Itália, epicentro de uma passeata histórica que reuniu mais de 1 milhão de pessoas. O ferimento o obrigará a usar uma prótese pelo resto da vida.

Quando anoitecia e as pessoas começavam a deixar aquele local, a polícia começou a lançar gás lacrimogêneo. "Eles esperam que a fumaça suba e começam a atirar, para que não sejam reconhecidos, mas, infelizmente, o que atirou contra mim vi que disparou diretamente contra o meu rosto", relatou Emerson.

-Polícia na mira -

As denúncias apontam principalmente para os Carabineros de Chile, a polícia militarizada, encarregada da dispersão dos manifestantes nas passeatas, enquanto os militares ficaram com o trabalho de contenção, pelo menos em Santiago.

"Neste momento, a grande maioria dos casos de violação dos direitos humanos que ocorreram tiveram Carabineros envolvidos", comentou Rodrigo Bustos, chefe jurídico do autônomo Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH, estatal), que realiza uma contagem dos casos de feridos com base na observação direta em hospitais e delegacias. "Não foram fatos isolados."

Cinco das 20 mortes ocorridas durante os protestos sociais em massa, iniciados no último dia 18, foram provocadas por agentes do Estado, segundo informações coincidentes do Ministério do Interior, Ministério Público e INDH. Em quatro destas cinco mortes, homens do Exército estiveram envolvidos. Um dos manifestantes morreu agredido por um policial.

Outras duas pessoas morreram atropeladas durante um protesto, enquanto o restante foi queimado ou ferido em saques, incêndios e incidentes gerados pela explosão social, em circunstâncias que estão sendo investigadas.

O relatório mais recente do INDH deu conta, ainda, de 3.193 detidos e 1.092 feridos. Destes, 596 foram feridos por uso de armas de fogo de vários tipos. O instituto anunciou hoje que já entrou com 88 ações na Justiça, cinco delas por homicídio e 17 por tortura e violência sexual.

- Violência sexual-

O Movimento de Integração e Libertação Homossexual (Movilh) denunciou, ainda, dois casos de "abuso e tortura homofóbica" em duas delegacias nos arredores de Santiago. A publicação eletrônica "The Clinic" divulgou vários relatos de violência sexual contra mulheres detidas.

Em meio a estas denúncias, espera-se para amanhã no Chile a chegada de uma missão do escritório de direitos humanos da ONU, liderado pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet.

A Anistia Internacional também anunciou para os próximos dias uma missão que "irá colher depoimentos e terá acesso a documentos para corroborar as denúncias de violação dos direitos humanos e possíveis crimes de direito internacional, a fim de acompanhar as vítimas", disse em comunicado Erika Guevara Rosas, diretora para as Américas da Anistia.

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