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O professor belga Peter Piot, um dos descobridores do vírus Ebola, é visto em 30 de julho de 2014

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O professor belga Peter Piot, um dos descobridores do vírus Ebola, descartou uma epidemia fora do continente africano, em entrevista à AFP, e pediu que as vacinas e os tratamentos, promissores nos animais, sejam testados em humanos.

Mesmo que uma pessoa portadora do Ebola viaje até Europa, Estados Unidos ou outra região da África, "não acho que isto possa causar uma epidemia importante", declarou à AFP este cientista que atualmente chefia a prestigiosa Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Peter Piot foi o codescobridor do vírus Ebola em 1976, quando tinha apenas 27 anos. Depois, ele foi diretor do programa ONUAids das Nações Unidas.

"Eu não estou muito preocupado com a ideia de que o vírus seja transmitido aqui na população", acrescentou.

"Não me preocuparia em ficar sentado no metrô ao lado de uma pessoa portadora do vírus Ebola contanto que não vomite em cima de mim ou algo do tipo", afirmou, lembrando que esta é "uma infecção que requer um contato muito próximo".

- É preciso descobrir se os tratamentos experimentais funcionam -

O professor Peter Piot lembrou que existem várias vacinas e tratamentos contra o Ebola que tiveram resultados promissores em animais e propôs testá-los nos seres humanos nas zonas afetadas.

"Acho que chegou a hora, pelo menos nas capitais, de oferecer estes tratamentos para um uso compassivo (uma regulamentação que permite tornar legal o uso de medicamentos não autorizados), mas também descobrir se são eficazes para que estejam preparados para a próxima epidemia", afirmou.

De acordo com este especialista, a história recente da Libéria e de Serra Leoa complica os esforços mobilizados na luta contra o vírus que pode ser mortal para 25% a 90% da população afetada e que já deixou 729 mortos no oeste da África.

"Não esqueçamos que estes países saem de décadas de guerra civil", disse.

"Libéria e Serra Leoa tentam agora se reconstruir. Portanto, há uma falta total de confiança nas autoridades que, somada à pobreza e aos serviços de saúde medíocres, é na minha opinião, a causa desta grande epidemia", destacou.

Em 1976, este cientista, que trabalhava em um laboratório em Antuérpia (Bélgica), contribuiu para isolar um novo vírus, chamado depois de Ebola, na amostra de sangue de uma religiosa católica morta no então Zaire, hoje República Democrática do Congo.

Depois, viajou para Yambuku, uma aldeia no antigo Zaire, onde o vírus do Ebola matava "uma pessoa em cada dez ou em cada oito".

"Eu estava com medo, mas tinha só 27 anos, nessa idade você se acha invencível", lembrou.

Os pesquisadores perceberam que a maioria das pessoas infectadas era de mulheres entre 20 e 30 anos, que frequentavam uma clínica para consultas pré-natais.

Descobriu-se que o vírus tinha sido transmitido através de um punhado de agulhas, mal desinfetadas, que eram usadas várias vezes nas mulheres grávidas.

Outra rede de contaminação estava vinculada a práticas funerárias. "Uma pessoa que morreu de Ebola tem o corpo coberto com o vírus por causa dos vômitos, da diarreia e do sangue", explicou.

"Está claro que novos vírus surgem constantemente e que o Ebola voltará, tomara que não seja com esta magnitude", advertiu.

A epidemia atual foi declarada no começo deste ano na Guiné, antes de se espalhar para a Libéria e, em seguida, para Serra Leoa, três países vizinhos que até esta quinta-feira totalizavam 1.300 casos, 729 dos quais mortais, segundo o último registro da Organização Mundial da Saúde.

AFP