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Indígenas marcham em Machachi, rumo a Quito

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Depois de dez dias de caminhada, ninguém pensa no cansaço ou no tímido apoio do governo. "Rafael Correa ofendeu o povo indígena", repetem como um mantra centenas de nativos, muitos ex-seguidores do presidente, ao chegar a Quito para se somar a uma greve convocada para a quinta-feira pela oposição.

Os quéchuas e os saraguros, que partiram em 2 de agosto do sul do país, percorreram 800 km a pé e em carro para chegar ao seu destino.

Na capital, esperam fazer ouvir como poucas vezes suas reivindicações contra Correa, o presidente de esquerda que, segundo eles, dividiu o movimento indígena com oferecimentos a alguns de seus líderes e críticas ferozes àqueles que não se dobraram a ele.

No entanto, não são mais a força para derrubar governos com seus levantes (protestos progressivos sem armas), nem lotam as ruas como nos anos 1990.

Mesmo assim, os cerca de 250 manifestantes da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) marcharam alegres entoando cânticos e saudando as pessoas que se aproximavam em seu trajeto a Quito, onde vão aderir à greve convocada para a quinta-feira por sindicatos e grupos de direita.

Desta vez, garantem, conseguirão com que "o prepotente Correa" se retifique.

O presidente, que conta com o apoio de um número importante de indígenas, tem se referido a seus opositores de Conaie como "aliados da direita" e "ponchos dourados (da elite)".

"Votei pela primeira vez em Correa pensando que o discurso era autêntico. Depois, nos demos conta de que roubou o discurso do movimento indígena para depois ir contra ele", disse à AFP Luis Sarango, indígena que marchou de Loja (sul, na fronteira com o Peru) até Quito.

Agora, "rejeito" esta atitude "prepotente" de Correia, acrescentou.

O presidente, que aprendeu o quéchua na juventude, convivendo com aborígenes no centro do Equador, vem colhendo adversários indígenas com seus projetos de exploração petroleira e mineradora, aos quais se opõem várias comunidades, alegando um grave impacto ambiental.

Segundo o censo oficial, os indígenas representam 7% da população equatoriana.

Em sua passagem por Machachi, localidade nos arredores de Quito, os indígenas da Conaie, que declararam rebeldia contra o governo, expõem uma longa lista de reivindicações que o presidente se recusa a aceitar.

Os pedidos vão desde o arquivamento de um pacote de emendas constitucionais em tramitação no Congresso de maioria governista, uma das quais permitiria que Correa se candidatasse a um novo mandato em 2017, à retirada de iniciativas ou leis que, na prática, tiraram poder aos indígenas na gestão da água, da terra e a educação em seus territórios.

Manuel Carduchi acredita que Correa não merece mais o apoio que deu a ele nas urnas. Correa "recolhia as aspirações pelas quais tínhamos lutado como movimento indígena", afirma. No entanto, acrescenta, despertou o ressentimento de muitos nativos com "tanto insulto".

Marcela Choloquinga, uma indígena quéchua da província de Cotopaxi, também disse sentir-se enganada. "Tinha a impressão de que este governo (...) compreenderia a voz da cidadania (...), mas foi um equívoco".

A Conaie quer aproveitar o mau momento do presidente para ressurgir como força opositora.

Alvo há dois meses de protestos que exigem que deixe o poder e pela queda dos preços do petróleo, que afeta as expectativas econômicas, o presidente admitiu nos últimos dias que enfrenta uma "difícil crise política" que minguou sua popularidade.

Os indígenas não estão sozinhos em sua campanha. Sindicatos, grupos de estudantes e políticos de direita se organizam para aquela que esperam ser a primeira grande greve contra Correa em oito anos de governo. A situação, por sua vez, acredita que esta nova tentativa da oposição de se reorganizar será um fracasso.

AFP