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(Arquivos) Scott Pruitt, no dia 18 de janeiro de 2017

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O diretor da Agência de Proteção Ambiental americana (EPA), órgão com status de ministério, avaliou como "corajosa" a decisão do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o Clima.

"O presidente tomou uma decisão muito corajosa", disse nesta sexta-feira, na Casa Branca, o diretor da EPA, Scott Pruitt, acrescentando que "não há motivo para pedirmos desculpas como país".

A saída dos americanos do pacto climático global deixa o caminho aberto para China e União Europeia assumirem o papel de grandes defensoras da luta contra as mudanças climáticas.

O presidente americano ficou claramente isolado, ante uma onda global de decepção, estupor e frustração pela retirada dos Estados Unidos de um acordo histórico alcançado por 195 países para reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

"O mundo aplaudiu quando aderimos ao Acordo. Sabem porque? Acredito que aplaudiram porque sabiam que ele colocaria o nosso país em desvantagem", afirmou Pruitt.

Particularmente, acrescentou, "os líderes europeus queriam que permanecêssemos no acordo porque sabem que este continuaria controlando nossa economia".

Pruitt, no entanto, se negou a responder se Trump acredita ou não nas mudanças climáticas como um fato comprovável cientificamente, alegando que não teve "oportunidade de ter esta discussão com ele".

Durante a campanha eleitoral, Trump chegou a afirmar que as mudanças climáticas eram um "mito" que a China inventou para obter benefícios no intercâmbio comercial.

- "Antecedentes espetaculares" -

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, assegurou nesta sexta-feira que os Estados Unidos vão manter seus esforços unilaterais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

"Acredito que é importante que todos reconheçam que os Estados Unidos têm antecedentes espetaculares em matéria de redução de emissões. É algo de que podemos estar orgulhosos, por tudo o que fizemos sem o Acordo de Paris", expressou.

Por isso, "não penso que vamos mudar nossos esforços para reduzir essas emissões no futuro, e assim espero que todos possam manter a perspectiva", apontou.

Enquanto Pruitt e Tillerson defendiam Trump, a comunidade internacional enviou sinais de que não ficará de braços cruzados ou apenas se lamentando pela saída de Washington do Acordo de Paris.

Em Bruxelas, a China e a União Europeia aproveitaram o vazio de liderança para mostrar sintonia sobre o tema, apesar das diferenças comerciais.

"Hoje intensificamos a nossa cooperação sobre as mudanças climáticas com a China", uma luta que "continuará com ou sem os Estados Unidos", disse o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, ao fim de uma cúpula em Bruxelas com o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang.

A cúpula deveria terminar com a assinatura de uma declaração conjunta para expressar a "firme determinação [...] na luta contra a mudança climática", segundo um rascunho consultado pela AFP, mas as diferenças sobre o comércio impediram a sua adoção.

Várias fontes europeias asseguraram que ambas as partes concordam com a visão sobre o clima. De fato, Pequim urgiu horas antes para que "cuidassem deste resultado tão dificilmente alcançado" em Paris em 12 de dezembro de 2015.

- Manter os compromissos -

Da Rússia, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, chamou os países a "seguir comprometidos" já que a mudança climática é "inegável" e "uma das maiores ameaças" para o "futuro" do planeta.

A Índia, um dos maiores emissores de CO2, atrás de China, Estados Unidos e UE, se mostrou favorável a respeitar o Acordo de Paris, mas a Rússia se negou a condenar a decisão de Trump.

"Não deveriam fazer um escândalo sobre isto, e sim deveriam criar as condições para um trabalho conjunto", declarou o presidente russo, Vladimir Putin, que afirmou que "não julgaria" seu contraparte americano.

A UE, entretanto, se encarregou de lembrar outros antecedentes de Washington em matéria climática, concretamente sua não ratificação do Protocolo de Kyoto.

Com a sua decisão, Trump enfrenta também um forte pressão interna, liderada por empresários, governadores e prefeitos americanos, que anunciaram que lutarão contra a mudança climática.

Responsáveis de empresas como Tesla, Disney, General Electric e as petroleiras ExxonMobil e Chevron reiteraram também os seus compromissos com o acordo climático.

E a maioria dos americanos em cada estado - 69% dos eleitores do país - acreditam que os Estados Unidos devem participar do acordo, segundo uma pesquisa recente do programa de mudança climática da Universidade de Yale.

A China e os Estados Unidos representam juntos cerca de 40% das emissões de gases de efeito estufa e o seu compromisso havia sido crucial para chegar ao Acordo de Paris.

Embora a saída efetiva dos Estados Unidos possa acontecer em 2020, depois de invocar o artigo 28 do acordo, Trump afirmou que todos os compromissos não vinculantes cessarão com efeito imediato.

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