O governador de São Paulo, João Doria, do PSDB, afirma que há uma unanimidade entre os governadores para ignorar o pedido anti-isolamento feito pelo presidente Jair Bolsonaro e levar adiante as medidas restritivas e de quarentena como principal mecanismo frente ao avanço do coronavírus.

O Brasil contabiliza 61 mortes e 2.589 casos, segundo as secretarias estaduais de Saúde.

Em entrevista à AFP na quarta-feira (25) no Palácio dos Bandeirantes, Doria estimou que "não há vácuo de poder", mas que os governadores estão assumindo um papel de liderança nessa crise.

Confira a íntegra da entrevista com o governador.

P: Qual foi o balanço da reunião virtual dos governadores com o presidente Bolsonaro (na quarta-feira)?

Participaram 26 dos 27 governadores do Brasil (o governador do Distrito Federal não participou). Todos os governadores foram unânimes em dizer que farão isolamento social, gradual, de acordo com as características de cada estado e das cidades que compõem o estado. Nenhum governador vai aceitar a recomendação do presidente Jair Bolsonaro de não fazer isolamento ou de romper o isolamento.

Todos entendem que a medida é necessária e que a crise do coronavírus é grave. Ao contrário do que afirma o presidente brasileiro de que a crise do coronavírus é apenas uma gripezinha ou um resfriadinho (...) Nunca houve uma crise tão grave quanto essa (no Brasil), e com impactos econômicos muito grandes para o nosso país.

P: Há um vácuo do poder no Brasil agora?

Faltou exercício, não diria que um vácuo, mas faltou exercício da liderança. O presidente Jair Bolsonaro não lidera o país num momento tão grave, tão difícil quanto esse. O que se espera de um líder num momento de crise é que ele lidere, ele comande, que ele seja o porta-voz dos brasileiros, que ele ofereça sugestões, orientações e comandos para a área da saúde e para economia, até para o carinho das pessoas. Num momento de crise onde a morte beira à vida de muitas pessoas, um gesto humanitário ajuda a minimizar o impacto psicológico da crise. (...) São Paulo lidera esse processo porque é a região do país com o maior número de infectados e, infelizmente, de mortes. Estamos fazendo a restrição e o isolamento gradual. A grande maioria compreende a importância deste período que pode durar até o fim de julho e que vai exigir a capacidade das pessoas de não saírem ou saírem apenas para o essencial.

P: O ministro da Saúde tem dado uma pequena guinada no seu discurso. O que o senhor acha disso?

O ministro (Luiz Henrique) Mandetta vive sob pressão forte do presidente da República, que não quer quarentena nem isolamento social. O presidente trabalha no achismo, na suposição nas suas vontades pessoais num tema tão grave que mexe com a vida das pessoas. Aqui constituímos um grupo de médicos, cientistas, acadêmicos e professores para nos orientarem a cada passo que devemos dar. Contratamos uma consultoria para o passo a passo na parte econômica e que oferece o cruzamento de informações internacionais a partir de experiências bem e mal sucedidas.

O presidente Jair Bolsonaro prefere as decisões precipitadas, instintivas e não fundamentadas nos protocolos da OMS e faz muita pressão no ministro de Saúde para que ele mude seu discurso e sua atitude, que até anteontem (23) era correta, e a partir de ontem (24), dada esta pressão do presidente, teve uma mudança. Espero como governador que não faça essa mudança e já disse que aqui em São Paulo vamos continuar seguindo o protocolo da OMS e não o protocolo do presidente Jair Bolsonaro, desprovido de fundamentos científicos, humanitários e práticos.

P: O senhor teme saques ou explosão social pela perda de renda das pessoas?

Creio que não. O Brasil tem mecanismos, principalmente se o governo federal agir, de fazer um programa de distribuição de renda para garantir uma renda mínima para esses brasileiros para que ao longo desses quatro meses possam superar tendo uma programação de renda que lhes permita ter alimentos. Uma vida restritiva, mas com condição de não passarem fome. Pessoas que passam fome ou morrem ou acabam buscando alternativas para terem que comer. Nós não temos de esperar chegar nenhuma dessas condições, mas o governo federal deve promover uma ação em todo país de amparo aos ambulantes, desempregados, população de rua. A aplicação desse programa pode ser feita por prefeitos e governadores, mas tem que ser financiado pelo governo federal.

P: Há risco então de saques ou explosão social se o governo federal não entrar com apoio econômico?

Cada governador saberá suprir, se for o caso, a ausência do governo federal. A ausência de liderança nessa crise é muito clara. O Brasil não tem líder na luta contra coronavírus e pela vida. O presidente lavou as mãos e não lidera. Quando vejo o noticiário internacional, vejo os líderes falando em nome de seus países, e não vejo o presidente falando em nome dos brasileiros, ele se ausenta, e quando fala, ainda fala errado e dá informações que assustam e preocupam as pessoas. Essa falta de liderança tem sido suprida pelos governadores e prefeitos.

P: A democracia brasileira está em risco?

Não vejo esse risco e entendo que os poderes estão bem formatados. Vejo também a sociedade civil de maneira majoritária defensora da democracia e dos valores democráticos.

P: Tem projeções para São Paulo do avanço do coronavírus?

Nós temos os cenários, mas prefiro não falar sobre eles, porque se discorrer sobre os cenários estarei fazendo previsões, e temos evitado. Temos três cenários do mais ao menos grave, mas tudo está sendo monitorado por esse grupo que é a central de contingência do coronavírus e nos dá informações diárias de como proceder, e também alimentam a parte econômica para saber sobre as outras medidas, de como podemos avançar no processo restritivo de isolamento.

P: Uma grande preocupação pesa sobre o grupo que deve sair para trabalhar. Qual é a garantia para eles em caso de doença?

Não chegamos ainda no estágio do 'lockdown', temos avançado seguindo esses protocolos para preservar a vida e a saúde das pessoas, mas temos de ter muito cuidado nessa sintonia para não apagar a economia do país e aí sim ter uma crise social de grandes proporções. São decisões difíceis de compatibilizar a necessidade de preservar renda, os serviços básicos, o funcionamento do campo e das cidades, das redes de abastecimento.

P: O 'lockdown' está descartado?

Nesse momento está descartado, mas não posso garantir que continuará descartado. Temos cenários previstos preparados, mas só avançamos nas decisões desses cenários de acordo com as informações que recebemos diariamente.

P: O que o distanciou do presidente?

No início de fevereiro de 2019 o presidente declarou que seria candidato à sucessão dele próprio. Foi a primeira vez que um presidente da República com um mês e meio de mandato declarava que ia disputar sua própria sucessão. E passou a me enxergar como competidor nesse processo, eu nunca anunciei que era candidato à presidência, mas ele me enxergou como adversário pela importância e dimensão que tem o estado de São Paulo. Eu lamento porque as eleições de 2022 devem ser tratadas em 2022.

P: O sr. não irá concorrer à presidência?

Não, estou cumprindo meu papel como governador do estado.

P: Haveria espaço para fazer alianças com outros setores políticos de centro ou esquerda?

Para as eleições municipais. Eu não entendo que alianças ou debates para as presidenciais devam ser tratados agora. É muito cedo, é inadequado e principalmente diante da crise do coronavírus.

P: Acha que é possível conversar sobre adiar as eleições municipais?

É uma decisão do Congresso, não do Executivo. Mas o alongamento da crise do coronavírus certamente vai prorrogar esse debate.

P: O sr. teme perder capital político?

Não tenho essa preocupação, não quero perder vidas. Não estou preocupado com capital político, e sim com vidas.

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