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A sombra da candidata do Frente Nacional, Marine Le Pen, durante discurso de campanha em Les Sables-d'Olonne, em 27 de março de 2017

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Lune votará pela primeira vez, mas sem convicção. Após uma campanha eleitoral dominada por escândalos e o avanço da extrema-direita, muitos franceses não têm candidato e comparecerão às urnas sem entusiasmo.

"Na minha primeira eleição vou ter que votar para impedir Marine Le Pen", lamenta Lune Culmann, uma estudante parisiense de 18 anos, em referência à candidata da Frente Nacional (FN), o partido francês de extrema-direita.

Para Marianne Gazet, 19 anos, escolher um candidato em 23 de abruk "será mais difícil do que pensava".

"Há tantos fatores nesta campanha além da política, como as revelações sobre os candidatos, que minha decisão não será por convicção", explica a jovem francesa que estuda em Londres.

A França tem a eleição de resultado mais incerto das últimas décadas, após uma campanha repleta de sobressaltos e em um contexto de saturação generalizada do sistema político existente.

Marine Le Pen, 48 anos, reforçada pelo Brexit e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, é a única candidata que, segundo as pesquisas, tem lugar garantido no segundo turno, que acontecerá em 7 de maio.

A grande incógnita é saber quem disputará o segundo turno com ela.

O conservador François Fillon, que começou a campanha como o grande rival de Le Pen, caiu nas pesquisas, encurralado por uma série de escândalos de corrupção.

Apesar de ter sido acusado pela justiça de desvio de recursos públicos, o ex-primeiro-ministro de Nicolas Sarkozy (2007-2012), que baseou o início de sua campanha na honestidade, se recusou a desistir da candidatura.

Na semana passada, o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, registrou um avanço considerável nas pesquisas e se aproximou dos favoritos, Marine Le Pen e o centrista Emmanuel Macron.

Mélenchon, candidato do partido França Insubmissa, subiu seis pontos nas últimas três semanas e aparece em terceiro lugar, com 18% das intenções de voto, superando pela primeira vez o conservador François Fillon (17%), de acordo com uma pesquisa KANTAR Sofres-Onepoint.

Le Pen e Macron, 39 anos e ex-ministro do governo do presidente François Hollande, permanecem como os candidatos em melhor posição para o primeiro turno.

Ambos têm 24% das intenções de voto, o que significa uma queda de dois pontos para cada uma na comparação com a pesquisa anterior.

Apesar da convergência de ideias com o candidato socialista, Benoît Hamon, Mélenchon se negou a formar uma aliança com o candidato oficial do partido governista, que nas últimas semanas caiu nas pesquisas e agora registra menos de 10% das intenções de voto.

Os outros seis candidatos à presidência francesa têm menos de 5% das intenções de voto.

- "Voto útil" -

"Há muita confusão", lamenta Jacques Drouet, 65 anos. "Estamos todos presos entre um voto por convicção e um voto útil", explica o engenheiro aposentado, que sempre votou na esquerda.

Ele ainda recorda do terremoto político de 2002, quando o ultradireitista Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, passou ao segundo turno, ao lado do candidato da direita, o presidente Jacques Chirac, eliminando o candidato socialista no primeiro turno.

Para evitar o que chama de "dilema impossível", Drouet pensa em votar em Macron.

"Emmanuel Macron é um dos principais beneficiários do voto útil porque aparece como o aspirante com mais chances de derrotar Le Pen", confirma Jérôme Fourquet, diretor do departamento de opinião do instituto de pesquisas Ifop.

O argumento do voto útil pode não convencer a todos, no entanto, e alguns eleitores podem optar por simplesmente não comparecer às urnas, o que aumenta o risco de um índice de abstenção elevado.

De acordo com algumas pesquisas, a abstenção em 2017 pode superar os 20% registrados na última eleição presidencial, de 2012.

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