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Combinação de fotos feita em 23 de abril de 2017 mostra os candidatos Emmanuel Macron e Marine Le Pen

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O candidato de centro e pró-europeu Emmanuel Macron é favorito para vencer sua adversária, a ultradireitista Marine Le Pen, no segundo turno das eleições presidenciais francesas, em 7 de maio, após o castigo infligido nas urnas aos partidos tradicionais no primeiro turno celebrado neste domingo (23).

O resultado dessa primeira rodada foi implacável. É a primeira vez em quase 60 anos que a direita estará ausente do segundo turno e a primeira que não terá representantes dos dois grandes partidos que dominam a política francesa em meio século: os socialistas do presidente François Hollande e os conservadores liderados por François Fillon.

"A direita sofre nocaute", intitulou a primeira página do jornal "Le Figaro", qualificando o resultado de "enorme desperdício".

Segundo resultados quase definitivos do Ministério do Interior, Macron, de 39 anos, venceu o primeiro turno com 23,7% dos votos, à frente de Le Pen, de 48, a quem se atribuiu 21,9% dos votos.

Eles são seguidos pelo conservador François Fillon e pelo esquerdista Jean-Luc Mélenchon, enquanto o grande derrotado deste domingo foi o socialista Benoît Hamon, que obteve apenas 6,2% dos votos.

Jovem e à frente de um novo partido, o En Marche!, Macron, que não se considera nem de esquerda, nem de direita, ganhou a primeira etapa de uma disputa arriscada, sem nunca ter-se submetido ao veredicto das urnas.

Enquanto os votos contabilizados na França indicavam a vitória de Macron, o euro teve forte alta na manhã de segunda-feira na Ásia perante o dólar e o iene.

"A voz da esperança"

"Em vosso nome, encarnarei (...) a voz da esperança para nosso país e para a Europa", declarou Macron, que se apresentou como o "presidente dos patriotas frente à ameaça dos nacionalistas".

"Os franceses expressaram seu desejo de renovação", declarou o ex-banqueiro, apontado por duas pesquisas realizadas neste domingo à noite como o vencedor do segundo turno por ampla maioria. Em uma, ele aparece com 62% dos votos, contra 38% para Le Pen. Na outra, são 64% contra 36%.

Hollande, de quem foi ministro da Economia, telefonou para cumprimentá-lo. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, saudou-o em um tuíte, no qual lhe desejou "sorte para o futuro".

Marine Le Pen, de 48 anos, ficou exultante de alegria diante do que chamou de "resultado histórico" e "uma etapa superada" para o partido Frente Nacional (FN), com o qual repetiu a façanha de seu pai 15 anos depois.

"A grande alternância"

Os franceses terão de escolher entre a "globalização selvagem", disse Le Pen, referindo-se a Macron, e "a grande alternância", representada, segundo ela, por seu programa.

Toda a classe política francesa, de direita e de esquerda, pediu que se detenha a ultradireita, como Fillon, que disse que Le Pen trará apenas "desgraça", "divisão" e "caos".

Qualquer um dos dois fará história: Macron, como o presidente mais jovem, e Le Pen, como a primeira mulher a chefiar o Estado francês.

Uma vitória de Macron representaria um alívio para a União Europeia (UE). Esse ex-ministro fez uma campanha com um programa abertamente pró-europeu e liberal. A Alemanha, voz ativa da UE, declarou-se feliz com o resultado.

É que, se Marie Le Pen vencer, ao contrário, viria uma grande época de incertezas para a UE, devido à sua defesa da saída do euro - um um golpe fatal para um bloco já debilitado pelo Brexit.

Capitalizando o cansaço dos franceses com o sistema, a ultradireitista se beneficiou da mesma onda populista que propulsionou a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, com um programa centrado na "preferência nacional".

Apesar da ameaça de atentados extremistas que pairava sobre essas eleições, os franceses não se amedrontaram e compareceram em massa às urnas. A participação beirou os 80%, uma das mais altas dos últimos 40 anos.

A reta final da campanha foi sacudida, esta semana, por um atentado na emblemática avenida Champs-Elysées de Paris e pela descoberta de um atentado iminente, em um país traumatizado por uma onda de ataques extremistas que deixaram mais de 230 mortos desde 2015.

Nesse clima de tensão máxima, as autoridades não pouparam em termos de segurança em todo o território para a votação, com o envio de mais de 50.000 policiais e gendarmes, além de 7.000 militares.

No nível interno, essas eleições são consideradas cruciais em um país com uma economia golpeada pelo desemprego e por um crescimento que não avança desde a crise de 2008.

A corrida ao Palácio do Eliseu tem sido atípica. Enfraquecido por uma impopularidade recorde, Hollande foi obrigado a renunciar de concorrer novamente. O impacto foi direto em seu candidato, Benoît Hamon, que teve um desempenho pífio, com menos de 7% dos votos.

A campanha esteve marcada pelos problemas judiciais, o que relegou ao segundo plano o debate das questões importantes.

François Fillon pagou um alto preço pelo escândalo dos empregos-fantasma de sua esposa, Penelope, e de dois de seus filhos.

Le Pen também é alvo de uma investigação por empregos fictícios no Parlamento Europeu, onde ocupa uma cadeira, e por irregularidades no financiamento de campanhas passadas.

Ela se nega, porém, a ser interrogada pela Justiça, invocando sua imunidade parlamentar.

Macron e Le Pen terão agora 15 dias para convencer os 47 milhões de eleitores de que são a melhor opção para comandar o país.

Aquele que vencer logo terá de criar alianças, de olho nas legislativas de junho. Realizadas em dois turnos, essas eleições até agora favoreceram os partidos tradicionais.

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