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Cartazes dos candidatos à presidência francesa em Toulouse, no dia 4 de maio de 2017

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"Um pró-Le Pen eliminado dos meus amigos do Facebook!". A menos de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais na França, as conversas entre amigos e colegas de trabalho correm o risco de acabar em discussões verbais.

Dos moderados espantados com a ideia de um vitória da candidata de extrema-direita Marine Le Pen, aos abstencionistas furiosos de estar chamados a votar no jovem centrista Emmanuel Macron - que não suportam - para bloquear sua rival, os franceses, enfurecidos, se atacam entre si.

"As línguas se soltam, é horrível. O grande esporte que pratico no trabalho é evitar o assunto das eleições. As pessoas se revelam", conta Anne. Esta eleitora, que não quis dar seu sobrenome, se mostra hostil às ideias do Frente Nacional (FN), o partido de Le Pen, embora more no sul, uma região conquistada pela extrema-direita.

Sua filha Zoé, estudante, começou deletando trinta amigos do seu Facebook. Depois desativou sua conta, horrorizada de ver apenas eleitores do FN ou abstencionistas ao seu redor.

Sete de cada dez franceses estão insatisfeitos com os candidatos do segundo turno, segundo uma pesquisa.

"Seja quem for o presidente, haverá perigo", apontou Yves, estudante comunista de Rennes (oeste) que rejeita ter que escolher, no próximo 7 de maio, entre a extrema-direita de Le Pen e o socialismo liberal de Emmanuel Macron, um ex-banqueiro de 39 anos.

Como ele, milhares de estudantes de ensino médio e universitários enfurecidos marcharam na quinta-feira passada por toda a França aos gritos de "Nem Le Pen nem Macron; nem pátria nem patrão", em referência ao projetos "fascista" da primeira e "capitalista" do segundo.

Se a surpreendente qualificação de Jean Marie Le Pen - pai de Marine e cofundador do FN - para o segundo turno das presidenciais de 2002 impulsou uma "frente republicana" e uma união em torno do seu adversário, Jacques Chirac, quinze anos depois o ambiente é radicalmente diferente.

"Há uma espécie de demonização de Emmanuel Macron", pessoas que rejeitam especialmente seu passado com banqueiro de negócios, "enquanto que em 2002 isto ocorreu contra Jean Marie Le Pen", aponta o historiador Jean Garrigues.

"Existe uma oposição entre dois mundos - grandes cidades contra a periferia -, com pessoas que não se compreendem porque não têm a mesma experiência de vida", observa Arnaud Mercier, especialista em redes sociais.

Desde a crise econômica de 2008, as linhas de ruptura se aprofundaram, especialmente entre os protecionistas, partidários da saída do euro, e os defensores de uma Europa aberta.

"A sociedade agora é mais violenta" e isto gera "atitudes e discursos que se radicalizam", manifestou Arnaud Mercier. "Eu meço isso através do que se diz nas redes sociais", acrescenta.

- 'Desilusão, rancor' -

O parisiense Gérard Siad, de 52 anos, alto executivo de uma empresa, se sente "assustado de ver que a França está extremamente dividida em quatro blocos. Chegamos a uma situação muito tensa. A frente republicana não funciona".

No primeiro turno, quatro candidatos obtiveram entre 19% e 24% dos votos cada, algo que nunca tinha acontecido no país.

Os apoiadores dos candidatos que não foram para o segundo turno, Jean Luc Mélenchon, da esquerda radical, e o conservador François Fillon, estão irritados.

Os partidários de Mélechon estão indignados de ser "convocados" a votar em Macron com o objetivo de colocar uma barreira à eleição de sua rival ultradireitista, enquanto seu líder se recusa a dar orientações de voto.

"Detesto Marine Le Pen, mas me pergunto, será que a França não precisa de um verdadeiro choque elétrico?", questiona Vanessa Harounyan, professora em Marsella (sudeste) tentada pela abstenção.

Na direita, muitos eleitores ainda não digeriram a derrota histórica de François Fillon, que excluiu, pela primeira vez em 60 anos, os conservadores do segundo turno de uma eleição presidencial.

Há "uma desilusão terrível, um rancor, uma amargura", afirma Jean Garrigues. Antes de ser investigado por seus negócios, Fillon era, de longe, o favorito para a votação.

"Não posso votar em Macron e depois lutar contra ele nas eleições legislativas" de junho, "não é possível", disse Antoine Bulard, estudante de direito de 20 anos.

Apesar de muitos amigos lhe terem dito para "ser responsável" e tentar impedir a eleição de Le Pen, ele decidiu votar em branco.

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