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(26 jul) A manifestante Amé em uma barricada erguida em Caracas

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Amé está na expectativa, não sabe se voltará a marchar: a bandeira venezuelana, o escudo e as luvas com os quais saía para protestar com a "resistência" radical estão guardados, agora, em sua casa.

Ela se diz frustrada, sente-se abandonada pelos líderes opositores e não quis participar da manifestação deste sábado, à qual compareceram apenas cerca de mil pessoas. "É uma gozação", afirmou.

Entre indignação, raiva, impotência e medo, muitos opositores abandonaram as ruas após quatro meses de protestos em massa contra o presidente Nicolás Maduro, que deixaram 125 mortos e milhares de feridos e detidos.

Alguns tinham a esperança de que conseguiriam tirar Maduro do poder ou, ao menos, impediriam a instalação da todo-poderosa Assembleia Constituinte, formada por 545 membros, todos chavistas.

Outros, expressaram sua indignação com a decisão da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) de participar das eleições de governadores, previstas para outubro, com um árbitro que acusa de ter articulado uma fraude em favor da Constituinte.

"A culpa é dos dirigentes da oposição. Começamos isto por eles e, praticamente, nos deixaram sozinhos", critica Amé, pseudônimo que esta mãe solteira de 24 anos usa na "resistência", ala mais radical dos protestos, formada por jovens que, com escudos e rostos cobertos, enfrentam as autoridades com pedras e coquetéis-molotovs.

"Agora vão dizer que a saída é eleitoral? Não faz sentido", critica.

- Convocação às ruas -

Foi um erro tornar os protestos rotineiros, estima a analista Colette Capriles. "A rua é uma tática que se deve saber administrar."

Em meados de julho, líderes da oposição falaram em não permitir que se impusesse "uma fraude constituinte", e convocaram partidários às ruas em uma frente unida.

Em um destes protestos, Amé quase foi detida, em meio à anarquia de bloqueios de ruas com troncos, entulho e lixo queimado, dispersados pelas forças de segurança.

Mas a Constituinte foi eleita em 30 de julho, sem a participação da oposição, entre denúncias de fraude e em meio a um forte rechaço internacional. Muitos assumiram o fato como uma derrota.

A decisão de participar das regionais causou fissuras na MUD.

"Convocamos os venezuelanos às ruas com um propósito, que era a saída do ditador, e agora exigem coerência", comenta María Machado, líder da ala mais radical da oposição.

María se diz fiel ao "mandato" de 7,6 milhões de votos que, segundo a MUD, arrecadou contra a Constituinte e a favor da renovação dos poderes públicos em um plebiscito simbólico realizado em 16 de julho. Participar de eleições de governadores, assinala, iria de encontro a este propósito.

"Estaria-se revalidando o golpe de Estado, reconhecendo uma Assembleia Constituinte fraudulenta e cubana, e legitimando um Conselho Nacional Eleitoral que o mundo inteiro reconhece como fraudulento", indica María, cujo partido, Vente, assim como o pequeno ABP, não participará.

- 'Saída eleitoral' -

"A única saída que temos é a de caráter eleitoral", opina, ao contrário, o deputado Henry Ramos Allup, do partido social-democrata Ação Democrática.

Ramos afirma que conquistar a maioria dos governos representaria "um golpe terrível" para Maduro e pressionaria por eleições presidenciais.

"Mostramos que, quando temos os votos, ganhamos", diz, referindo-se à maquina mobilizada que os levou ao desempenho arrasador nas eleições legislativas de dezembro de 2015 e a conquistar a maioria no Parlamento.

Esta não é a primeira vez que as manifestações esfriam. A última foi em novembro de 2016, quando a oposição teve um diálogo sem sucesso com o governo após o fracasso de um referendo revogatório contra Maduro, bloqueado pela Justiça e o CNE.

A MUD perdeu, na ocasião, sete pontos de popularidade. "Toda decisão representa riscos, tem um custo", assinala Ramos, após reconhecer que "alguns se cansaram, decepcionaram-se".

As manifestações foram retomadas em 1º de abril, depois que o máximo tribunal de Justiça assumiu temporariamente as funções do Legislativo, e ganharam fôlego com a convocação da Constituinte.

AFP