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Pessoas seguram bandeiras pró-independência da Catalunha enquanto assistem sessão parlamentar, em Barcelona, em 27 de outubro de 2017

(afp_tickers)

Os pedidos para que se boicotem os produtos alimentícios, medicamentos ou veículos fabricados na Catalunha preocupa as empresas instaladas na região, já que temem virar prisioneiras de um jogo político destrutivo.

"É preciso atingi-las onde dói mais: no bolso", disse um usuário do Twitter, com a hashtag #BoicotProductosCatalanes (boicote a produtos catalães).

"Nós espanhóis que não queremos que a Espanha se desmembre (...), podemos passar à ação, adotando uma medida dissuasiva de caráter econômico", diz uma página no Facebook com o mesmo assunto.

Algumas páginas já existiam há muito tempo. Contudo, suas publicações ganharam força à medida que se endureceu o conflito entre o governo central e o regional, após o referendo de autodeterminação ilegal de 1 de outubro.

A convocação de um boicote atinge sobretudo a indústria agroalimentar, pilar básico da indústria catalã: a cava, a cerveja Estrella Damm, o creme de cacau Nocilla, o chocolate em pó Cola Cao e marcas de água mineral como Vichy Catalás e Font Vella, entre outros.

Mas ele também afeta os medicamentos, em uma região onde a indústria farmacêutica está muito bem implementada, os carros da fábrica catalã da Seat (grupo Volkswagen), e até mesmo grupos estrangeiros presentes lá, como Nestlé, Danone e Unilever.

Os ânimos estão tão quentes que já fizeram até um aplicativo para smartphones que mostra ao consumidor quais produtos são catalães.

Por ora, o impacto econômico do boicote é difícil de avaliar.

No caso da cava, por exemplo, "há alguns clientes que compraram menos", sobretudo em Madri, "mas ainda vamos ver, porque as grandes vendas começam em novembro", nas compras de Natal, explicou à AFP Rosa Rebulà, gerente da Rosell i Formosa.

Vários clientes, contudo, indicaram que deixaram de comprar a cava por motivos políticos.

"Cada coisa nos disseram! Não entendem a situação e ponto", disse Rebulà, que já sofreu um boicote em 2004, depois de um político catalão se pronunciar contra a candidatura olímpica de Madri aos Jogos de 2012.

Na ocasião, o boicote foi "muito intenso. E a maioria dos clientes perdidos nunca foram recuperados. As consequências podem ser graves" desta vez também, alerta.

- 'Contraproducente' -

Freixenet, líder do setor de cavas, pretende tirar sua sede social da Catalunha e explica que as cifras de vendas não serão disponibilizadas até o fim do trimestre.

Nem a Câmara de Comércio de Barcelona, nem as organizações patronais têm dados do impacto deste boicote.

Várias vozes surgiram para pedir calma, entre elas a de Josep Borrell, ex-presidente do Parlamento Europeu e ex-ministro socialista espanhol.

"O boicote precisa parar, porque as pessoas que serão arruinadas por causa dele terão um sentimento ainda mais anti-espanhol", alertou em uma coletiva de imprensa nesta terça-feira.

Outros se preocupam com o efeito bumerangue que essa medida possa provocar no resto da Espanha.

"Cada vez que boicotamos um produto catalão, damos um tiro no próprio pé", afirmou Francisco Javier Peinado, secretário-geral da Confederação Regional Empresarial de Extremadura (oeste), em uma entrevista ao jornal El País.

Além disso, muitos dos produtos fabricados na Catalunha usam matérias-primas de outras regiões da Espanha, como a farinha.

Rosa Rebulà, a produtora de cava, lembra aos seus clientes que eles também estão insatisfeitos com a situação política na Catalunha e com as tentativas de separação dos dirigentes.

Das garrafas, "a cortiça vem de Extremadura, e o vidro vem de León. Se eles não comprarem de nós, não poderemos comprar" destes fornecedores, resume ela.

Comisiones Obreras, um dos principais sindicatos espanhóis, denunciou como "uma política ridícula e contraproducente" o pedido de alguns separatistas de boicotarem as empresas que tiraram a sede social da região.

"Com esse tipo de iniciativas, se promove que essas decisões não sejam reversíveis e possam se consolidar no tempo", o que "terá efeitos sobre o emprego direto e indireto".

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AFP