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O presidente equatoriano, Rafael Correa, em Punta Cana, no dia 24 de janeiro de 2017

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Equador se encaminha para um segundo turno presidencial em 2 de abril entre o governista Lenín Moreno e o opositor de direita Guillermo Lasso - admitiu o presidente Rafael Correa, nesta quarta-feira (22), referindo-se a um cenário que complica a continuidade de seu projeto socialista.

Embora o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) ainda não tenha anunciado o resultado definitivo da lenta e agonizante apuração dos votos de domingo (19), Correa reconheceu hoje, no Palácio de Carondelet, que o ex-vice-presidente Moreno ficou a "meio ponto" de vencer no primeiro turno.

"Tudo nos indica que venceremos no segundo turno. De fato, em todos os cenários, o candidato mais fácil de derrotar é Guillermo Lasso", assegurou.

Esse cenário faz prever uma duríssima campanha entre dois modelos antagônicos e abre uma frente de incerteza para a enfraquecida esquerda latino-americana, assim como para o asilo de Julian Assange, da plataforma WikiLeaks.

Com 98,58% dos votos apurados, o socialista Moreno tem 39,33% dos votos válidos diante dos 28,18% do ex-banqueiro Lasso.

Para evitar o segundo turno, Moreno precisava de 40% dos votos e uma diferença de pelo menos 10 pontos percentuais sobre o segundo.

Espera-se que nas próximas horas o CNE também anuncie os resultados definitivos das eleições para a Assembleia Nacional, que influencia diretamente a governabilidade do país.

Hoje, o governo conta com maioria de dois terços no Legislativo, o que lhe permite, por exemplo, tramitar reformas constitucionais e julgar um presidente, ou vice-presidente.

'Campanha contra as oligarquias'

Analistas advertem há semanas que um segundo turno complicaria muito o panorama do correísmo, desgastado pela delicada situação econômica por conta da queda nos preços do petróleo e das crescentes denúncias de corrupção que assombraram a campanha.

Em um segundo turno, a oposição, encarnada por partidos de direita e descontentes com a gestão de Correa, poderia se unir, embora tenha chegado a essas eleições completamente dividida.

"Nem Moreno, nem Lasso ganharão facilmente, mas me parece que Lasso tem mais espaço para crescer e alcançar os 50%. Essa era a análise do Aliança País (governista) e, por isso, queria ganhar no primeiro turno", explicou à AFP o cientista político Santiago Basabe, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

Moreno representa a continuidade de um sistema que combina um grande gasto social com altos impostos e elevado endividamento, contra o modelo de Lasso, ex-presidente e acionista do Banco de Guayaquil, que procura fomentar o investimento estrangeiro e a diminuição dos impostos para estimular o consumo e a produção nacional.

"Os dois vão ter um exercício de abertura política. Moreno vai planejar uma campanha contra as oligarquias, dirigida a questionar a agenda neoliberal de Lasso. E Lasso terá de propor uma agenda social mais ampla", explicou o cientista político Franklin Ramírez.

Tudo dependerá, porém, do comportamento dos eleitores dos outros seis candidatos. Terceira colocada nas eleições com 16,22%, a ex-deputada de direita Cynthia Viteri pediu votos para Lasso.

"Muito claramente quem vai governar serei eu!", disse Moreno, enquanto Lasso agradeceu aos eleitores "pela maior unidade de oposição contra o correísmo".

- 'Direita cavernosa'

A iminência do anúncio por parte do CNE diminuiu o tom dos protestos em frente a sua sede no norte de Quito, onde centenas de opositores, a maioria das classes média e alta, permanecem em vigília para exigir transparência e rapidez na apuração.

"Embora seja verdade que tenha muito voto popular entre os social-cristãos de Viteri, a maioria virá conosco", assegurou à AFP Patricio, trabalhador da construção civil, envolvido na bandeira do CREO, o partido de Lasso.

Após a guinada à direita no Brasil, na Argentina e no Peru no ano passado, o segundo turno no Equador pode significar um novo golpe para a esquerda latino-americana, que deixaria a Venezuela de Nicolás Maduro e a Bolívia de Evo Morales isoladas.

"Há uma nova direita, mas é cavernosa, totalmente entregue ao norte. Lasso vai se colocar contra a integração regional, vai se enquadrar com os países hegemônicos, disse que vai assinar tratados de livre-comércio", denunciou Correa nesta quarta-feira durante coletiva de imprensa.

O resultado dessa eleição também será decisivo para o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, asilado na embaixada do Equador em Londres desde 2012 para evitar sua extradição para a Suécia. Acusado de ter cometido crimes sexuais, Assange nega.

Moreno é partidário de manter o asilo, mas Lasso disse à AFP que, se chegar ao poder, irá retirá-lo da missão diplomática.

Para Rafael Correa, a postura de Lasso representa um "entreguismo" aos Estados Unidos.

Lasso "disse explicitamente que convidaria o senhor Assange a deixar a embaixada. Assim é o entreguismo da nossa direita para se mostrar para o norte", manifestou em reunião com a imprensa estrangeira, referindo-se aos EUA.

Correa ainda questionou Lasso de não querer "respeitar os compromissos" do Equador com sua posição de retirar o asilo de Assange.

"Quer atentar contra seus direitos humanos, tirá-lo e deixá-lo desprotegido", concluiu.

AFP