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(8 ago) Erdogan participa de um ato eleitoral em Ancara

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O carismático premier islâmico-conservador Recep Tayyip Erdogan, 60, no poder desde 2003, venceu neste domingo as eleições presidenciais na Turquia, tornando-se o mais longevo dirigente da república fundada em 1923 por Mustafa Kemal Ataturk sobre as ruínas do Império Otomano.

Erdogan, que, quando jovem, foi vendedor ambulante, torna-se o líder mais poderoso da Turquia moderna e uma figura providencial para seus partidários, mas a encarnação da polarização crescente no país para seus detratores.

Mas "o sultão", como é chamado, enfrentou nos últimos anos, nas ruas e redes sociais, acusações de despotismo, por parte de ex-aliados e opositores.

A repressão às manifestações sociais e as leis de controle da internet mancharam a imagem de um homem considerado responsável por uma década de crescimento ininterrupto em uma potência emergente de 76 milhões de habitantes.

"Não sou um ditador", afirmou Erdogan.

As denúncias envolvendo corrupção em seu entorno e os ataques nas redes sociais o irritaram a ponto de ele começar a chamar os adversários de "traidores" e "terroristas".

Também foi acusado de minimizar o acidente na mina de Soma, que, em maio, deixou 301 mortos, atribuindo-o a uma fatalidade e comparando-o aos desastres em minas inglesas do século XIX.

Mas ele segue tendo um apoio sólido nas zonas rurais e nos meios religiosos, que prosperaram sob seu governo.

- 'Giro autoritário' -

O partido de Erdogan venceu todas as eleições desde 2002, e o primeiro-ministro, no cargo desde 2003, ganhou o status de homem que trouxe a estabilidade depois de décadas de golpes de Estado e alianças frágeis, e que soube cortar as asas dos militares.

Grande incentivador de pontes, aeroportos e projetos faraônicos de infraestrutura, Erdogan transformou a Turquia em um mercado robusto, controlando a inflação e triplicando a renda da população.

Seu impulso de construtor chocou-se, em maio de 2013, com a resistência da população de Istambul à transformação do parque Gezi em um centro comercial de estilo otomano.

Durante três semanas, 3,5 milhões de turcos protestaram em centenas de cidades, desafiando a repressão policial. As manifestações resultaram em oito mortos, mais de 8 mil feridos e milhares de prisões.

Em dezembro, Erdogan acusou seus ex-aliados da irmandade do imã Fethullah Gülen de estarem por trás das acusações de corrupção contra o Executivo.

Este ano, promulgou leis que reforçam o controle sobre a internet, denunciadas como "liberticidas" pela oposição.

Segundo o professor Ilter Turan, da Universidade Bilgi, de Istambul, o apoio constante nas urnas teve o efeito paradoxal de incentivar as "tendências autoritárias" do chefe de governo.

"Desde que chegou ao poder, o premier foi mudando aos poucos das tendências pragmáticas para a autoritárias, do trabalho em equipe para as decisões pessoais, da democracia para o autoritarismo, das políticas elaboradas para as impulsivas", afirma.

- Da prisão ao poder -

Erdogan, filho de um guarda-costas de Kasimpasa, foi vendedor ambulante de limões e pães na adolescência.

Aderiu rapidamente a grupos islâmicos que enfrentavam o regime secular-nacionalista e os governos militares que consideravam parte de sua missão manter uma separação rigorosa entre as mesquitas e as instituições estatais.

Foi jogador semiprofissional de futebol e realizou estudos empresariais, antes de ser eleito, em 1994, prefeito de Istambul, cargo em que ganhou popularidade com medidas para tentar reduzir os congestionamentos e a poluição na megalópole, de 15 milhões de habitantes.

Seu partido foi declarado ilegal e Erdogan passou quatro meses na prisão por ter recitado em uma manifestação um poema islamita considerado pelos juízes incitação ao ódio religioso.

Em 2001, Erdogan e Abdullah Gul, atual presidente turco, fundaram o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que, no ano seguinte, obteve a primeira vitória nas urnas.

Seus governos promoveram reformas que aproximaram a Turquia da União Europeia, embora o processo de adesão se encontre paralisado, em grande parte devido a disputas internas.

Nos últimos anos, Erdogan flexibilizou a proibição do uso do véu islâmico, restringiu a venda de bebidas alcoólicas e tentou afastar os dormitórios de homens e mulheres nos alojamentos universitários, o que lhe valeu denúncias de tentar impor uma islamização desenfreada da sociedade.

"Não concordo com a opinião de que a cultura islâmica e a democracia são incompatíveis", declarou, em certa ocasião.

Os defensores do regime laico criado por Ataturk o acusam de trair seu legado, mas Erdogan afirma que a transformação de um país atrasado em uma potência regional teria sido aprovada pelo pai da Turquia moderna.

AFP