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Um dos principais líderes da oposição na Venezuela, Henrique Capriles, em entrevista coletiva em Caracas em 15 de fevereiro

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Um mês de protestos contra o governo de Nicolás Maduro deixou marcas no líder da oposição Henrique Capriles: rosto abatido, voz rouca e um resfriado que - confessa - complica ainda mais quando precisa lidar com o gás lacrimogêneo usado nas manifestações.

No entanto, acha que as manifestações devem crescer, pois já vê uma saída para a crise venezuelana.

E afirma que, se os opositores fossem violentos, já teriam derrubado o presidente. Maduro, segundo o opositor, está jogando suas "últimas cartas".

AFP: O que Maduro busca com sua proposta de Constituinte?

HC: Eles não querem eleições, essa é a razão. O governo, como não consegue vencer eleições, quer desmontar a forma como elas continuarão sendo organizadas.

Há semanas, falavam da melhor Constituição do mundo e hoje afirmam que é preciso fazer uma nova para parar com os processos eleitorais e desmontar os que estavam previstos (de governadores e prefeitos). Falam da universalidade do voto, mas dizem: você vai votar, mas no universo de quem eles decidirem que você pode participar.

AFP: Você diz que seria um sistema eleitoral como o de Cuba. Por quê?

HC: Porque acaba não sendo uma eleição democrática, universal, direta e secreta (...). Ele (Maduro) diz que 50% (dos membros da assembleia) vão ser setoriais. Todos os venezuelanos sabem que setorial são o Congresso da Pátria, Conselhos Locais de Abastecimento e Produção, conselhos comunitários que estão em mãos do PSUV - partido governista. Maduro convida sua cúpula, apenas a outra metade, a participar em um processo de votação com candidatos. Quer uma Constituição que permita que ele, não tendo a maioria popular, se perpetue no poder.

AFP: Vocês vão participar nesse processo?

HC: Em cenário algum vou participar. (...). O país entraria num cenário muito complicado, com duas Constituições, uma vigente e uma fraudulenta. Com uma Constituição que é o resultado de uma minoria que pretende impor regras, se cair o governo.

AFP: Maduro parecia encurralado e agora toma esta iniciativa. Isso diminuirá a intensidade dos protestos?

HC: Não sei quanto tempo vão durar os protestos. O que posso dizer é que vejo uma firmeza admirável nas pessoas. Se nós fôssemos violentos, e se não fôssemos democratas, já teríamos derrubado o governo.

AFP: Como?

HC: Com todas as pessoas. Imagine um milhão de pessoas nas ruas, que fossem violentas e golpistas, já teríamos derrubado o governo (...). A Venezuela vai para um desenlace insustentável. É um governo que se isola do mundo democrático, sem capacidade de financiamento, sem recursos, com a inflação e a escassez mais altas do mundo.

Como Maduro se sustenta? Os protestos vão continuar até que o país tenha uma solução para que possa se expressar.

AFP: De onde pode sair essa solução?

HC: Continua sendo a pressão do lado interno para fora (...) Que o governo tenha que recapacitar.

AFP: Por que continuar enviando mensagens à Força Armada se ela expressou sua lealdade ao governo?

HC: Porque a Força Armada também vota, vive a crise e seu juramento é defender nossa Constituição. O chamado é para que esse debate interno, essa divisão que existe, não resulte em um golpe ou um levante, e sim que se imponha a Força Aérea democrática. Assim, Maduro não vai poder continuar utilizando-a para reprimir. Que acontece se a Guarda Nacional disser que não vai continuar reprimindo? Maduro consegue se sustentar?

AFP: Mas a repressão parece aumentar...

HC: Vejo isso como uma jogada. Maduro está jogando as últimas cartas. Está usando mais gente radical, inclusive temos dúvidas de que alguns dos que estão reprimindo seja efetivos da Guarda Nacional ou da Polícia Nacional.

AFP: Estrangeiros?

HC: Não, gente sem escrúpulos.

AFP: Qual a importância do apoio internacional?

HC: Ao termos um mundo democrático que diz: existe uma ruptura da ordem constitucional, não vamos continuar sendo permissivos, você não vai continuar usando as instâncias internacionais como um lugar para se refugiar e fazer alvoroço, a Maduro resta arrasar o lado interno. Vejo uma combinação muito forte entre a comunidade internacional democrática e o povo venezuelano.

AFP: O que vem agora?

HC: É preciso continuar pressionando, persistir, organizando e agitando todo o país; não podemos ficar apenas em Caracas.

AFP: Como vai fazer com sua perda de direitos polítios por 15 anos?

HC: Isso nunca vai surtir efeito.

AFP: Por quê?

HC: As coisas vão mudar. Se posso ou não ser candidato, não é algo que me tira o sono. Minha preocupação é que Venezuela mude e estou convicto de que este país vai mudar.

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