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Pessoas se reúnem na Cidade do México para apoiar parentes e amigos dos 43 estudantes da escola Ayotzinapa desaparecidos, no dia 24 de setembro de 2015

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A um dia de completar um ano do crime que manchou a imagem de seu governo, o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa continua a assombrar o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, que agora é questionado por supostos erros e omissões nas investigações do caso.

Em uma missão aprovada por seu governo e com acesso aos registros da procuradoria até então vetados ao público, um grupo de peritos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) apresentou um extenso relatório que desmonta a versão oficial dos fatos e sugere que o exército e as forças federais mexicanas estavam cientes do ataque aos estudantes e que omitiram ajuda.

O questionamento da "verdade histórica" ​​professada pela procuradoria considerando, por exemplo, não haver nenhuma evidência de que os jovens foram incinerados em um depósito de lixo e insinuando possíveis responsabilidades federais, atinge o governo de Peña Nieto, que está em seu mais baixo nível de popularidade no rastro deste terrível crime, da fuga do narcotraficante Joaquin "El Chapo" Guzman e de acusações de conflitos de interesse.

Com o relatório da Comissão, "as instituições mexicanas passaram a ser muito questionadas, o que é outro elemento que contribui para a falta de credibilidade do discurso oficial em muitos âmbitos, do próprio exercício do governo", avalia o professor de política Hector Zamitiz Gamboa, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

O relatório da Comissão contesta as conclusões da procuradoria que se baseiam exclusivamente nos depoimentos conflitantes obtidos supostamente sob tortura, que ignoram ou destroem importantes provas ou omitem aprofundar o papel que poderia ter tido um quinto ônibus possivelmente carregado de drogas no ataque de 26 de setembro da polícia de Iguala (Guerrero, sul) contra os jovens e sua posterior entrega a traficantes.

"Túnel da impunidade"

"O México precisa resolver o caso de Ayotzinapa o mais rapidamente possível (...) não só para resolver este crime, mas para provar ao mundo que há luz no fim do túnel da impunidade mexicana", declarou recentemente o jornal El Universal em um editorial.

Embora o procurador-geral Arely Gómez tenha prometido levar em conta as recomendações da Comissão e fazer um novo parecer sobre a alegada incineração dos corpos, o diretor da Agência de Investigação Criminal, Thomas zeron, insistiu que há provas "contundentes" de que, pelo menos, um grande número dos 43 estudantes foram mortos no lixão.

A versão do lixão foi apresentada pelo ex-procurador-geral, Jesus Murillo Karam, como a "verdade histórica", mas sua investigação foi criticada e o oficial foi afastado do caso em março.

O relatório observa que há "uma história fabricada pela PGR (procuradoria) e apresentada como versão final, essencial para virar a página, fechar o livro, 'superar' Ayotzinapa", escreveu a cientista política Denise Dresser numa coluna no jornal Reforma intitulada "Mentira histórica".

Dresser estava se referindo ao pedido feito pelo presidente Peña Nieto dois meses após a tragédia, quando ele pediu aos mexicanos para olhar para frente e superar este episódio negro, provocando fortes críticas daqueles que consideraram que não abordou o caso com a sensibilidade necessária nem dedicou espaço suficiente em seus discursos públicos.

"Cuidar" da imagem do presidente

De fato, muitos mexicanos não perdoam Peña Nieto que, ao longo deste ano, não visitou Guerrero para ver em primeira mão a situação das famílias dos meninos e que só as encontrou uma vez em outubro do ano passado.

"Parece-me claro que estão tentado proteger a figura presidencial e sua própria integridade no sentido de não o expor em um estado que tem sérios problemas de segurança, mas isso foi um erro, que deveria ter sido melhor tratado no interesse de resolver a questão", estima o professor Zamitiz Gamboa.

Incrédulos diante da versão oficial dos fatos, pais dos 43 estudantes desaparecidos de Ayotzinapa se reuniram na quinta-feira com o presidente mexicano.

Foram os mesmos familiares que em 6 de setembro passado exigiram de Peña Nieto que desse "a cara" depois que o informe dos especialistas da CIDH pôs em dúvida a versão oficial do crime.

Peña Nieto assegurou aos familiares das vítimas que a investigação sobre o caso segue aberta.

Contudo, segundo o advogado das famílias, Vidulfo Rosales, o presidente "não se comprometeu com nenhuma" das reivindicações, que incluem uma investigação do papel do exército no caso, a permanência dos especialistas da CIDH e a devolução dos corpos das vítimas.

AFP