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Criança segura cartaz contra a candidata à presidência pela Frente Nacional, Marine Le Pen, em Rennes, em 1º de maio de 2017

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A preocupação com a abstenção que poderia favorecer a extrema-direita no segundo turno no domingo da eleição presidencial francesa provocou o aumento dos pedidos de voto para o jovem centrista Emmanuel Macron, na véspera de um debate na TV com Marine Le Pen.

Líderes empresariais, personalidades da cultura, pesquisadores e cientistas, associações, grandes veículos de imprensa: as arquibancadas ou petições em favor do candidato do movimento "Em Marcha!" tentam com suas armas limitar a abstenção frente à candidata da extrema-direita.

Nesta terça-feira foi a vez do maior jornal católico, La Croix, a assumir seu lado, depois de muitos jornais nacionais, ressaltando que "diante do risco que pode advir com Marine Le Pen, a abstenção não é suficiente".

De acordo com pesquisas, que apontam uma clara vitória a Macron, a abstenção se aproximaria de 30% no domingo, bem acima dos números registados no segundo turno das eleições presidenciais anteriores, com exceção de 1969 (31,1%).

Dois terços dos militantes da França Insubmissa, a plataforma liderada pelo radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon, optarão pelo voto em branco ou a abstenção no segundo turno nas eleições presidenciais de domingo, segundo pesquisa via internet.

Entre os 243.000 votantes, 36% escolheram o voto em branco ou nulo e 29% a abstenção, enquanto 35% votarão no centrista Emmanuel Macron.

Mélenchon, que obteve 19,6% dos votos no primeiro turno, em 23 de abril, preferiu não dar seu apoio a qualquer candidato, deixando para as bases da formação política tomarem uma posição comum a partir de um voto na internet.

"Abster-se é o equivalente a dar metade de sua voz a Marine Le Pen, na eleição mais emblemática que a França tem visto em décadas", insiste o matemático Cédric Villani, no jornal de esquerda Libération.

Quanto aos grandes empresários, alguns expressaram seu "total apoio" ao ex-ministro da Economia do atual governo socialista (2014-2016), como, no domingo passado, o CEO do grupo aeronáutico europeu Airbus, Tom Enders.

Outros (Veolia, Leclerc, Bouygues, Atos...) explicam todo o mal que representaria para eles uma vitória da candidata da Frente Nacional (FN) para à economia.

Os artistas, excepcionalmente discretos antes do primeiro turno, também elevaram a voz. Os cineastas Mathieu Kassovitz e Luc Besson, o diretor do famoso festival de Avignon, Olivier Py, os dirigentes dos principais teatros nacionais, o Prêmio Nobel de Literatura Jean-Marie Le Clézio, mas também cantores, comediantes e cartunistas pediram que a FN seja barrada.

Um encontro do mundo da cultura "contra a FN" deve acontecer nesta terça-feira à noite em Paris. Entre os raros atletas, Zinédine Zidane, ícone do futebol francês, chamou a "evitar ao máximo" a Frente Nacional.

Estas vozes se somam às de líderes políticos, sindicais ou religiosos - com exceção da Igreja Católica, que, um dia após o primeiro turno, já havia apoiado Macron.

Sua rival Marine Le Pen, que conta com poucos apoios de peso, tenta convencer os desapontados do primeiro turno.

'Contra o sistema'

Muito ofensiva desde o primeiro turno, Le Pen se apresenta como a candidata do povo contra o "sistema", a "elite" e a "oligarquia".

Nesta terça-feira, Le Pen prometeu destinar como presidente 0,7% do PIB francês, algo em torno de "15 bilhões de euros, à cooperação com a África", e rejeitou as "falsas acusações" de racismo e xenofobia, durante um encontro em Paris dedicado à política africana.

Pela primeira vez em 2017, a FN recebeu o apoio de um candidato de outro partido político, o soberanista Nicolas Dupont-Aignan (4,70% dos votos) que será seu primeiro-ministro, caso ela seja eleita.

Na segunda-feira, Le Pen realizou um comício na periferia de Paris, diante de milhares de pessoas. O discurso, que retomou sem citar quase palavra por palavra de ao menos quatro passagens de um discurso de François Fillon, despertou muitas críticas.

"Não foi plágio, mas uma piscadela assumida", afirmou o secretário-geral da FN, Nicolas Bay, na véspera do debate que vai opor os dois candidatos na quarta-feira à noite.

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