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(3 set) Manifestante celebra na capital a renúncia do presidente Otto Pérez Molina

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A campanha para as eleições de domingo na Guatemala chegou ao fim nesta sexta-feira, com o ex-presidente Otto Pérez, que renunciou por acusações de corrupção, detido à espera de que um juiz decida se apresentará acusações formais contra ele.

Uma audiência para determinar se Pérez será processado foi suspensa pelo juiz Miguel Angel Gálvez, que adiou sua decisão para terça-feira. O ex-presidente deverá ficar em prisão provisória até esse dia no quartel militar de Matamoros, na capital guatemalteca.

"Sinto-me triste", disse Pérez ao sair da audiência de mais de cinco horas, ao ser perguntado por jornalistas como seria passar outros três dias preso, depois de ser enviado na quinta-feira para o quartel.

A prisão impedirá Pérez de votar nas eleições de domingo, nas quais serão escolhidos o presidente, 158 deputados, 338 prefeitos e 20 representantes do Parlamento centro-americano.

General da reserva de 64 anos, Pérez contou seu histórico como militar durante a guerra civil da Guatemala (1960-1996) e como chefe de inteligência para se defender das acusações apresentadas pela Promotoria de que comandaria uma rede que cobrava propina para sonegar impostos alfandegários.

O esquema de cobrança de subornos para a sonegação de impostos veio à tona em abril passado através do Ministério Público e da comissão da ONU contra a impunidade na Guatemala (CICIG), e provocou manifestações populares pedindo a renúncia de Pérez e de sua vice-presidente, Roxana Baldetti, que deixou o cargo em maio.

Durante a audiência desta sexta-feira, transmitida por vários canais de TV, Pérez afirmou que em junho de 1993, quando era chefe de inteligência militar, chefiou uma operação que permitiu a captura do narcotraficante Joaquín Chapo Guzmán.

Ele destacou que, naquele momento, Guzmán e seu pessoal ofereceram uma recompensa em troca de sua liberdade, uma quantia muito superior ao dinheiro que, segundo a Promotoria, recebeu do esquema de corrupção.

Segundo a Promotoria, a rede de corrupção recebeu propinas equivalentes a 3,8 milhões de dólares, dos quais 800.000 dólares teriam correspondido a Pérez.

"Eu, senhor juiz, não vou por meu sacrifício e dignidade em jogo nem por 800.000 dólares nem por nenhuma quantia. O dinheiro que poderia ter recebido no momento da captura (de Guzmán) era 10 vezes mais que isso e não o aceitei".

O ex-presidente negou-se a responder às perguntas do juiz e de seus acusadores.

Seu advogado, César Calderón, pediu ao juiz Gálvez que se abstenha de assumir o caso por ter emitido previamente uma opinião contrária a Pérez.

O magistrado disse que responderia ao pedido na terça-feira.

O caso contra Pérez, que passou a noite de quinta-feira detido no quartel militar de Matamoros, criou um clima de ebulição na reta final para as eleições do próximo domingo.

Os guatemaltecos indignados, que não pararam de protestar pacificamente todas as semanas desde o início das denúncias de corrupção, em abril, exigem uma mudança no sistema político.

"Os políticos faziam o que queriam, mas esses casos de corrupção fizeram com que muitos despertassem e não vamos fechar nossos olhos novamente", disse à AFP Luisa Monterroso, uma nutricionista de 34 anos que esteve em vários protestos.

"Acredito que a Guatemala mudou e de agora em diante os candidatos e as novas autoridades serão mais fiscalizadas", acrescentou.

"Período histórico"

À frente das pesquisas eleitorais se destacam três candidatos, do total de 14 inscritos, com possibilidade de passar para o segundo turno, no dia 2 de outubro.

Uma pesquisa publicada na quinta-feira pelo jornal Prensa Libre situou em primeiro lugar Jimmy Morales, um comediante de 46 anos do partido de direita Frente de Convergência Nacional, com 25% das preferências.

Seguem-no o advogado direitista Manuel Baldizón, de 45 anos, do partido Liberdade Democrática Renovada, com 22,9%, e a ex-primeira-dama Sandra Torres, de 59 anos, da social-democrata União Nacional da Esperança, com 18,4% das intenções de voto.

Para muitos guatemaltecos, as eleições de 2015 são um divisor de águas devido à queda de Pérez.

"Este é um período histórico que a Guatemala vive. É uma crise profunda nunca antes vista no país. Nunca teríamos pensado que alguns poderes seriam tocáveis", afirmou em coletiva de imprensa a líder indígena e Prêmio Nobel da Paz Rigoberta Menchú.

Outros advertem que a renúncia de Pérez não significa o fim das estruturas que propiciam a corrupção na Guatemala.

Corrupção com raízes profundas

"Temos que unir forças, a Guatemala não pode baixar a guarda. O fato de que hoje estejam perante a justiça aqueles que praticaram atos de corrupção não quer dizer que a corrupção tenha acabado na Guatemala", disse a jornalistas Norma Cruz, diretora da Fundação Sobreviventes.

No mesmo sentido, o economista Mynor Cabrera, da Fundação Econômica para o Desenvolvimento, acredita que o problema de fundo é o modelo de financiamento dos partidos políticos, no qual aqueles que financiam "esperam recuperar esse dinheiro depois".

"O problema é que tem gente que se alimentou deste sistema e tem muito poder", avaliou Cabrera.

No entanto, o ex-magistrado colombiano Iván Velásquez, chefe da CICIG, disse em uma entrevista que "esta é a oportunidade mais importante, provavelmente a única, que a Guatemala tem de sair deste estado de corrupção".

AFP