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Guatemala inicia diálogo, mas protestos contra presidente continuam

Presidente guatemalteco Alejandro Giammattei afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 24. novembro 2020 - 16:55
(AFP)

O governo guatemalteco iniciou nesta terça-feira (24) um encontro com diferentes setores para "analisar" um novo orçamento para 2021. O Congresso suspendeu na véspera as contas que havia aprovado na semana passada e que foram o estopim de vários dias de protestos, em que a população pediu a renúncia do presidente Alejandro Giammattei.

O objetivo da reunião é "analisar as modificações que serão apresentadas nos próximos dias, como um projeto de reforma do orçamento de 2021", escreveu o presidente em seu Twitter.

Giammattei disse que o novo plano de gastos vai priorizar saúde, desnutrição infantil, segurança, justiça, educação e reativação econômica. Ele não citou, porém, o combate à pobreza, que atinge 59,3% dos quase 17 milhões de habitantes do país e é uma das demandas da população.

O encontro, realizado no antigo palácio do governo, durou cerca de três horas e contou com a presença de associações civis, centros de pesquisa, lideranças empresariais, igrejas evangélicas e representantes da Universidade de San Carlos de Guatemala.

Giammattei abriu o diálogo e em seguida, se retirou do local, onde permaneceram altos funcionários, incluindo o ministro das Finanças, Álvaro González, responsável pelo fracassado projeto de lei orçamentária.

Giammattei não mencionou em seu discurso as manifestações ou o incêndio de gabinetes na sede do Congresso no último sábado, quando a polícia reprimiu os protestos.

O governo fará ainda reuniões com outros setores. O encontro desta terça sofreu um revés porque três organizações se recusaram a participar por discordarem do formato do diálogo.

O projeto orçamentário original desencadeou indignação e rejeição em diversos setores, que reclamaram que o plano de gastos não contemplou o combate à pobreza nem destinou recursos suficientes para educação e saúde.

Após a aprovação do texto, milhares de manifestantes lotaram as ruas da capital no sábado para exigir a renúncia de Giammattei, enquanto um grupo incendiava a sede do Parlamento.

A polícia reprimiu as manifestações com gás lacrimogênio, incluindo algumas pacíficas e com a presença de menores, provocando rejeição dentro e fora da Guatemala.

As Nações Unidas, a Anistia Internacional, a OEA e um grupo de países e organizações que cooperam com a Guatemala lamentaram a repressão e apelaram a um diálogo para encontrar uma saída para a crise.

A ONG Human Rights Watch criticou a repressão policial excessiva nesta terça-feira e pediu uma investigação.

O Congresso unicameral, dominado pelo partido no poder e partidos ligados a Giammattei, havia aprovado na semana passada o orçamento para 2021 proposto pelo Executivo de quase 12,8 bilhões de dólares, o maior da história do país. Mas ele reverteu sua decisão diante da onda de rejeição popular.

Com a suspensão do processo, os deputados têm até 30 de novembro para aprovar um novo orçamento, de acordo com a lei. Caso contrário, o que rege em 2020 permanecerá em vigor, por cerca de 10.390 milhões dólares.

- Os protestos continuam -

Embora as manifestações tenham diminuído de intensidade, lideranças indígenas se reuniram nesta terça-feira em frente à Casa Presidencial, antiga sede do governo e do Congresso, para exigir a renúncia do presidente e dos deputados.

"Que o presidente renuncie, já recebemos tantos abusos dele, de todos os deputados (...) e o que eles têm feito, zombam de nós", lamentou uma liderança indígena ao fazer um discurso na manifestação.

"Temos que lutar e se eles não vão nos ouvir, o povo vai tomar outras decisões, eles sempre nos marginalizam”, comentou outro líder.Os indígenas representam mais de 40% da população.

Também exigiram o fechamento do chamado Centro de Governo, um "superministerial" criado por Giammattei e dirigido por um amigo seu.

Outra convocação circula nas redes sociais nesta terça-feira para criticar o presidente que "só vai falar sobre o orçamento" e não sobre a pobreza, a pandemia e o flagelo dos ciclones Eta e Iota que deixaram um rastro de mortes e desaparecimentos por toda a América Central.

A indignação da população também foca na gestão da crise de saúde por Giammattei, um médico de 64 anos, além de seu deficiente combate à corrupção.

O chefe de Estado tem sido criticado por seu próprio vice-presidente, Guillermo Castillo, pela oposição e setores sociais, que denunciam precariedades nos hospitais e no atendimento aos setores mais afetados pelos confinamentos.

O Congresso aprovou em março empréstimos de mais de 3,8 bilhões de dólares para atender à pandemia, mas apenas 15% desses recursos chegaram à população, segundo dados oficiais e de agências de auditoria.

Dados do Ministério da Saúde indicam que o coronavírus já deixou 4.099 mortos e quase 120 mil infecções no país.

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